Texto publicado no caderno Rio Show do jornal O Globo em 17 de junho de 2011
Nascida no ano da Revolução Francesa, na África do Sul, Saartjie ‘Sarah’ Baartman ao longo de sua curta vida conheceu apenas humilhação, degradação, exploração. Uma saga iniciada na infância e prosseguiu na adolescência com o acúmulo de perdas, teve seu ‘auge’ com a exibição em shows em Londres e Paris e culminou com a apropriação de sua identidade pela Ciência, que exibiu seus restos mortais e órgão sexual no Museu do Homem em Paris.
A representação de história tão aterradora dependia essencialmente da potência física e emocional da intérprete. O realizador em ascensão Abdellatif Kechiche, nascido na Tunísia, radicado na França, e aclamado por A Esquiva e O segredo do Grão, encontrou corpo e alma em Yahima Torres, nascida em Havana, radicada em Paris e nenhuma experiência cinematográfica. É compreensível, portanto, o suposto fervor com que o diretor se dedicou a representar a história desta Vênus Negra, ou, como ficou conhecida, Vênus de Hotentote (relativo a um grupo linguístico do sudoeste africano).
Nas telas, a saga de ‘Sarah’ começa após a sua morte, em Paris, em 1817, na Escola Real de Medicina. O respeitado médico Georges Cuvier, ao lado de um molde perfeito do objeto em estudo, pontificava nunca ter visto a cabeça de um ser humano tão parecida com a de um macaco, afirmação aplaudida com entusiasmo pelos colegas.
A história retrocede Londres, 1810, quando a jovem africana era uma das principais atrações de freak shows, ao lado de homens elefantes, mulheres cobras e outras anomalias. Caezar (Andre Jacobs), seu amo africano de origem holandesa, detém com a presa uma relação ambígua: viajaram, segundo ele, de comum acordo, visando o enriquecimento rápido de ambas as partes. ‘Sarah’ seria livre, tese desmentida pelo olhar abismal com que contempla a vida e o mundo que a cerca. Uma intervenção da imprensa em Londres revela-se inútil. Sarah’ não passa de uma mercadoria negociável, e como tal passa para as mãos de um casal francês. Em Paris vira atração dos salões para deleite de nobres ‘chocados’ mas ‘hipnotizados’ pela ‘diferença’. Depois, a prostituição.
Por vários motivos Vênus Negra é um filme perturbador e frustrante. Kechiche optou não só por reproduzir com profusão de detalhes as longas e repetidas seqüências de humilhação em Londres e Paris, carregando na fotografia sombria e nos planos fechados, assim como a minuciosa sordidez da argumentação científica. É de se perguntar se mesmo involuntariamente, o diretor não repetiu o comportamento dos amos de ‘Sarah’, exibida à exaustão. O “bonequinho” aplaude de pé a atuação de Yasmine e o resgate desta afronta ao humano, mas lamenta os excessos de uma história que prossegue pelos letreiros finais. O sofrimento de Sarah foi interminável, mas o filme poderia terminar bem antes.
# VÊNUS NEGRA (VÉNUS NOIRE)
Bélgica, França, Itália, 2010
Direção: ABDELLATIF KECHICHE
Roteiro: ABDELLATIF KECHICHE e GHALIA LACROIX
Fotografia: LUBOMIR BAKCHEV
Edição: GHALIA LACROIX, ALBERTINE LASTERA, CAMILLE TOUBKIS
Figurino: FÁBIO PERRONE
Elenco: YAHIMA TORRES, ANDRÉ JACOBS, OLIVIER GOURMET, ELINA LÖWENSOHN
Duração: 159 minutos
Site oficial: http://www.mk2.com/venusnoire