Críticas


TEMPO DE CADA UM, O

De: REBECCA MILLER
Com: KYRA SEDGWICK, PARKER POSEY, FARIUZA BALK, RON LEBMANN
11.07.2003
Por Susana Schild
CARTILHA SURRADA

O Tempo de Cada Um chega aos cinemas com o carimbo de vencedor do Festival de Sundance em 2002. O segundo longa de Rebbecca Miller, nome que sempre vem entre dois apostos - filha do dramaturgo Arthur Miller e namorada de Daniel Day Lewis - tem mesmo a cara do cinema-independente-padrão consagrada nos anos 80 pelo evento que se transformou em sua principal plataforma de lançamento.



Foi em Sundance que nomes como Joel e Ethan Coen (com Gosto de Sangue/Blood Simple), Quentin Tarantino (Cães de Aluguel/Reservoir Dogs), Hal Hartley (The Unbelievable Truth), Steven Soderbergh (sexo, mentiras e videotape) cunharam a grife que ficou valendo como garantia de cinema autoral, supostamente bom e barato, longe das fórmulas de Hollywood. Ao longo do tempo, a surpresa "independente" se consolidou como um novo gênero com regras e cacoetes, entre eles câmera nervosa, personagens e elenco à margem do "sistema", orçamentos modestos, uma suposta experimentação, um assumido toque autoral e a expectativa de prover algum conteúdo ao espectador, em contraponto ao cinemão, mais preocupado com grandes nomes, efeitos especiais e ação.



Elogiada por Angela, seu filme de estréia em 95, em O Tempo de Cada Um Rebecca Miller levou três contos próprios para a tela. Incorporou a cartilha do manifesto Dogma 95, a câmera inquieta de John Cassavetes e aderiu à tecnologia digital para focar três mulheres cujas vidas se cruzam apenas pela notícia de um desastre transmitida pela TV. A primeira, Deli (Kyra Sedgwich), depois de apanhar alguns anos do marido, um dia decide ir embora levando os filhos. Vai morar na garagem de uma amiga de escola, vira garçonete e objeto de desejo do filho adolescente da patroa. A segunda, Greta (Parker Posey, vista em vários filme Hal Hartley) é uma editora ambiciosa e bem-casada. Só que depois de algum tempo ela passa a achar a profissão mais excitante que o marido, no arqui-batido conflito casamento X carreira. A situação da terceira é mais enrolada: Paula (Fairuza Balk) tem um jeito meio homeless de ser e faro certeiro para estar no lugar errado, na hora errada e com as pessoas erradas. O lado bom da coisa é que ao tomar consciência da gravidez, ela se reconcilia rapidinho com a humanidade na saída de uma loja de Donuts.



A trajetória das três mulheres é explicada tim-tim por tim-tim por uma impositiva narração masculina em off. O comportamento bizarro, acredita o narrador, estaria em algum trauma na infância - relação mal-resolvida com pai, mãe, coisas assim. Talvez para o público americano, esses perfis estereotipados façam algum sentido, mas não se pode dizer que Rebecca Miller tenha mostrado alguma originalidade narrativa ou uma abordagem mais sensível das personagens. Seguiu de forma aplicada a cartilha independente. Só isso.



Recentemente, As Horas, de Stephen Daldry, inspirado no arguto livro de Michael Cunningham, apesar de pertencer à categoria "cinemão", também elegeu três mulheres em universos diferentes como tema, com um resultado em elegância, inteligência e espaço para reflexão a anos luz do apresentado por Rebecca Miller. O Tempo de Cada Um tenta ser contemporâneo e ousado, mas é apenas uma mostra de que fórmulas inovadoras podem parecer tão velhas quanto o clichê de responsabilizar pai e mãe por traumas de infância de personagens canhestras e insatisfatórias.



# O TEMPO DE CADA UM (PERSONAL VELOCITY)

EUA, 2001

Direção e Roteiro: REBECCA MILLER

Produção: GARY WINICIK

Fotografia: ELLEN KURAS

Montagem: SABINE HOFFMAN

Música: MICHAEL ROHATYN

Elenco: KYRA SEDGWICK, PARKER POSEY, FARIUZA BALK, RON LEBMANN

Duração: 85 min.

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário