
É impossível assistir ao ultimo filme de Marco Belocchio, A Bela Que Dorme (Bella addormentata), sem pensar em uma alegoria da Itália contemporânea, sobretudo se lembramos dos últimos filmes do diretor, quase todos voltados para uma investigação sociológica e politica da atualidade de seu país. Através de quatro historias paralelas, o filme narra os últimos seis dias da vida de Eluana Englaro (um personagem real que viveu 17 anos em coma até sua morte em 2009) e propõe uma discussão sobre a eutanásia, tema muito atual na Europa. Através dessas historias, cujo único elo é a situação de Eluana e a iminência de uma votação no Senado de um projeto de lei sobre o assunto, o diretor tenta traçar um perfil de seu pais. Nesse caso, a Itália poderia ser percebida como a bela adormecida do filme, que há anos viveria em um estado vegetativo, paralisada pelo fanatismo religioso, o radicalismo antirreligioso e políticos corruptos preocupados apenas com a imagem do partido e com suas carreiras politicas. Todos encarando o problema sempre a partir de suas convicções pessoais, sem nenhuma preocupação ou respeito pelo pensamento do outro, pela expressão da alteridade.
Desta forma, cada uma das quatro historias apresenta um tipo de questionamento diferente e peculiar à discussão sobre a eutanásia. Assim o filme apresenta o problema de fundo quase filosófico de um senador em crise de consciência e disposto a contrariar as diretrizes de seu partido, votando segundo suas próprias convicções ; a questão de ordem religiosa envolvendo a filha desse mesmo senador, uma católica fervorosa que defende um dos dogmas do criacionismo catolicista segundo o qual apenas Deus, o criador, pode tirar a vida de uma pessoa; o problema de ordem maternal e afetiva de uma atriz que sacrifica a própria carreira e sua família para cuidar da filha caçula em coma vegetativo, sem perceber que sua obsessão a conduz ao isolamento e a uma certa loucura, além daquele de ordem ética que representa a luta de um médico para manter viva uma drogada suicida que não encontra mais razão para viver.
Mas o que é interessante no filme é que o experiente diretor não se restringe à discussão sobre o direito de cada um à vida ou à morte, que ela seja desejada pelo próprio paciente ou determinada à sua revelia por membros de sua família. Ele aproveita o tema para suscitar um debate sobre uma outra questão nada irrelevante em nossos dias (sobretudo na Itália, onde as sucessivas vitorias de Sílvio Berlusconi, apesar de todos os escândalos e acusações que pesam contra ele, têm suscitado calorosos debates sobre a legitimidade do voto majoritário): o problema do livre arbítrio nas sociedades democráticas, nas quais somos regidos pelas leis clânicas, religiosas, jurídicas, deontológicas, constitucionais ou ainda por princípios morais que nos obrigam a submeter a vontade própria ao desejo democrático e legítimo da maioria. Opondo a individualidade à coletividade e vice-versa, o filme questiona, por um lado, sobre o direito que teriam as instituições publicas ou privadas de impedir que um determinado membro da família de um paciente em coma queira aliviar o sofrimento do ente querido. Por outro lado, ele também interroga-se sobre o direito de certos membros da família ou das instituições de exigirem a morte de um doente em coma sem pensar nos sentimentos daqueles que ainda acreditam numa espécie de milagre que mesmo sabendo impossível não lhes impede de apegarem-se a uma fé de circunstancia e a esperanças que, no fundo, eles sabem vãs. O filme vai mais longe e discute até mesmo o papel da ética profissional diante do direito do individuo. Que direito teria um médico de impedir uma pessoa emocionalmente arruinada de por fim à sua vida? Por outro lado, que direito tem o suicida de exigir do médico que ignore a sua deontologia? Onde começa o direito de um e termina o do outro nas sociedades democráticas?
O filme, que abusa de uma dialética que escapa à maioria de seus personagens, procura não se definir abertamente por um campo ou por outro e busca entender as diversas razões em conflito, trazendo um pouco de racionalidade a um debate emocional e impressionista e construindo sua narrativa em torno da seguinte questão : a quem realmente pertence a vida e o direito de decidir sobre continuar a viver, ainda que de forma vegetativa, ou de morrer? A fim de demonstrar as incongruências possíveis de ambos os discursos, a narrativa não se furta à caricatura de alguns personagens mais emblemáticos. A jovem romântica que representa o lado religioso é uma pessoa boa, mas afetivamente carente que faz lembrar as mulheres brasileiras que em 1964 participaram da marcha da família com Deus pela liberdade e que eram pejorativamente chamadas de “mal amadas”; o personagem que encarna o radicalismo antirreligioso é representado como um ser patológico e dominador; a obsessão da mãe devotada (Isabelle Huppert, maravilhosa, apesar do pequeno papel) assemelha-se à uma renúncia da própria vida; a própria luta do médico para manter viva uma heroinômana insinua laços de afinidades e tem dificuldades para dissimular a tentativa de dar sentido a uma existência aparentemente tão vazia e solitária quanto a de sua paciente, com a droga e o exercício médico funcionando ambos como um escapismo para um isolamento social de ordem pessoal; enquanto os senadores da direita popular e berlusconiana, com exceção do personagem principal (um ex-socialista), parecem um bando de velhos necrosados e narcisistas apenas preocupados com suas aposentadorias e com suas aparições esporádicas na TV.
Assim, independentemente das consequências em cada um ou das motivações pessoais de cada personagem para defender ou resistir à eutanásia, o filme parece valorizar a vitória do indivíduo contra o sistema, as instituições (incluindo a família), a coletividade e contra um Estado italiano totalmente gangrenado e que já não consegue mais atender as necessidades elementares de seus cidadãos.
Destaques para as atuações seguras de Isabelle Huppert, Toni Servillo, Michele Riondino e do jovem Fabrizio Falco, assim como para a bela fotografia de Daniele Cipri, que é também diretor e roteirista.