Marcelo Janot está integrando o Júri da Crítica Internacional (FIPRESCI) no 82o Festival de Veneza, e ao longo do evento compartilhará breves impressões sobre os principais filmes assistidos.
DIAS 27,28 e 29
O DESTAQUE
“EOJJEOL SUGA EOPDA”, de Park Chan-wook
O novo filme do diretor sul-coreano de “Old Boy”, “A Criada” e “Decisão de Partir” é baseado no romance policial americano “The Ax”, de Donald E. Westlake, publicado em 1997 e adaptado para o cinema em 2005 por Costa-Gavras com o título de “O Corte”. Portanto, apesar de vir sendo saudado por muita gente como o “Parasita" de 2025, ao contrário do filme de seu conterrâneo Bong Joon-ho, não se trata de uma história original.
O que há de semelhante com o filme de 2019 é a ambientação da trama na casa de uma família de classe social privilegiada que vê sua rotina abalada a partir de um elemento transformador - no primeiro caso, os novos empregados que se infiltram como parasitas, e aqui a notícia da demissão do patriarca, Man-su (Lee Byung-hun), após 25 anos trabalhando como gerente para uma fábrica de papel.
Sem conseguir se recolocar no mercado de trabalho por conta da crescente automatização que gera cada vez mais cortes de funcionários, e ameaçado de ter que se desfazer da casa, dos dois cachorros e dos hábitos que o dinheiro podia comprar, ele toma uma decisão radical: assassinar seus principais concorrentes a uma vaga em uma das empresas de papel que ainda utilizam força de trabalho qualificada como a dele.
Pode-se imaginar o que resulta de tal decisão partindo de um pai de família honesto que nunca pegou em uma arma antes. Com a estética característica do cinema sul-corteano, misturando doses de humor quase pastelão com momentos sanguinolentos bem ao estilo do diretor, o que o filme nos confirma, a partir de uma história publicada nos Estados Unidos no fim do século passado e adaptada na França há 20 anos, é que a nova ordem econômica parece um pesadelo cada vez mais global - e devastador.
MELHOROU
“LA GRAZIA”, de Paolo Sorrentino
O diretor italiano de “A Grande Beleza”, que coleciona na mesma proporção fãs ardorosos e detratores implacáveis, vinha do fracasso retumbante do pretensioso “Parthenope”, que passou em brancas nuvens em Cannes, mas aqui ele está bem mais sóbrio. Segurando a mão nos maneirismos visuais, metáforas e simbolismos, ele consegue dar o seu recado de forma clara e direta ao retratar os últimos dias no poder de um fictício presidente italiano, interpretado com o brilhantismo de sempre por Toni Servillo. Conhecido pelo apelido de “concreto armado” por ser fechado e durão, o vemos lidando com dilemas familiares e políticos ao se confrontar com questões que envolvem a eutanásia e o pedido de perdão presidencial para dois assassinos que teriam razões justificadas para os crimes cometidos. A inspiração vem dos dilemas éticos e morais da série “Decálogo”, de Krzysztof Kieslowski, que Sorrentino resgata aqui com delicadeza e momentos de grande beleza. O presidente de Servillo no fundo é um sujeito bom (e que adora ouvir hip hop nas alturas), cuja melancolia contrasta com a crescente desumanização dos tiranos instalados no poder mundo afora.
SOFRÊNCIA
“ORPHAN”, de Laszlo Nemes
Se você lembra bem (e quem consegue esquecer?) do filme de estreia do diretor húngaro, “O Filho de Saul”, sabe que seria muito difícil fazer outra obra tão impactante, brilhante e ao mesmo tempo deprimente como aquele ambientado em um campo de concentração nazista. “Orphan”; não chega perto, mas ainda assim é pesado e tocante ao retratar o drama de outro menino sofrendo as consequências da guerra. Se passa em Budapeste em 1957, logo após o fracassado levante popular contra o regime comunista, e traz um cenário extremamente hostil sob a ocupação soviética. Andor é um adolescente judeu que vive com a mãe, acreditando que o pai teria morrido na guerra. Para muita gente, a revelação de que seu pai está vivo pode ser um alívio - mas para ele e sua mãe é apenas o início de um pesadelo. Pode-se dizer que Nemes até “segura a mão” e tenta encontrar espaço para um pouco de poesia em meio à desgraça, mas o que fica mesmo é o impacto dramático.
A DECEPÇÃO
“JAY KELLY”, de Noah Baumbach
O início soa promissor, com um plano-sequência que percorre os agitados bastidores dos instantes finais de uma filmagem que tem Jay Kelly (George Clooney), famoso ator hollywoodiano, como protagonista. Antes de emendar mais um trabalho, ele entra em crise existencial e decide recuperar o tempo perdido com as filhas. Ou seja, cancela o novo projeto, para desespero de seu agente (Adam Sandler), e aceita pela primeira vez ser homenageado com um tributo num pequeno festival na Toscana. Ao surpreender a filha viajando de trem de segunda classe, ele volta a experimentar a sensação do que é ser uma pessoa “normal”, ao mesmo tempo em que a partir do reencontro com um ex-amigo de juventude (Billy Crudup) relembra episódios marcantes de sua vida e as consequências de suas escolhas. “Jay Kelly”; poderia ser um “Memórias”, de Woody Allen, sem a neurose, misturado com elementos de “Noite Americana”, de Truffaut. Consegue ser apenas um ligeiro passatempo Netflix como veículo para admiradores de Clooney, que descamba no sentimentalismo e em algumas cenas um tanto inverossímeis - consegue imaginar George Clooney entrando no vagão de um trem, todo simpático com a galera, e ninguém sacar o celular pra registrar a presença ilustre ou pedir uma selfie? Enfim, esse é apenas um de muitos problemas que o filme enfrenta.