
Com 21 obras e foco na produção da última década, a mostra Cine Uruguai – Novos Horizontes traça um panorama marcado por políticas públicas, consolidação autoral e o peso inescapável da herança de Pepe Mujica.
Dez anos representam um hiato considerável quando se analisa a silenciosa, porém ininterrupta, revolução audiovisual que o Uruguai atravessou em sua história recente. Para romper esse longo jejum de exibições sistemáticas no Brasil, a CAIXA Cultural Rio de Janeiro abriga, de 20 de outubro a 1º de novembro de 2026, a mostra Cine Uruguai – Novos Horizontes. Composta por 16 longas e cinco curtas-metragens, a programação vai muito além de um mero catálogo de vizinhança. Trata-se do atestado de uma cinematografia que encontrou seu próprio eixo estrutural e narrativo.
O curador Leonardo Luiz Ferreira, que assina a seleção ao lado da cantora TAMY, aponta um marco claro para essa virada: a promulgação de políticas públicas a partir de 2008, aliada à criação da Agencia del Cine y Audiovisual del Uruguay (ACAU). “Demorou-se bastante tempo até que surgissem mecanismos governamentais de fomento. E isso reconfigurou completamente a cinematografia uruguaia: de um caráter episódico e independente de realização para uma estrutura industrial de produção com apoio fundamental em toda a cadeia”, analisa o pesquisador.
Se a primeira edição do evento, realizada há uma década, buscou traçar uma historiografia básica — revisitando obras fundamentais como El Dirigible (1994) e a obra-prima Whisky (2004) —, o momento atual exige um olhar rigoroso voltado à contemporaneidade. O recorte da curadoria (2016 a 2026) flagra uma produção com livre trânsito em festivais internacionais e uma distribuição comercial mais robusta, exemplificada por títulos como Milonga (2023) e Os sonhos de Pepe (2024). Segundo Leonardo, observa-se hoje “um olhar para dentro motivado pelas transformações sociais e políticas implementadas pelo governo de Mujica, e também uma universalização dos temas como luto, amor e morte. É um processo de continuidade e complementação que se inicia no princípio dos anos 2000 e se recrudesce entre 2016 e 2026”.
A identidade da mostra foi erguida sobre uma curadoria de costura dupla. De um lado, a vertente narrativa e ficcional que radiografa as fraturas da sociedade contemporânea. Do outro, uma funda raiz rítmica e identitária conduzida por TAMY, que residiu por anos em Montevidéu. É por meio da vivência da cantora que o evento reverencia a matriz africana do país e a força ancestral do candombe, destacando em documentários nomes totêmicos como Rubén Rada, Cachila e Hugo Fattoruso.
“O processo curatorial a quatro mãos é interessante porque amplia os horizontes e faz com que a mostra tenha uma pluralidade de olhares para refletir de uma forma mais ampla o âmago do cinema uruguaio”, conta Leonardo. “Eu, como brasileiro, não teria como compreender o estilo musical candombe como tão importante assim para a cultura uruguaia. Ele acaba por abranger identidade, ancestralidade e cultura afrodescendente muito além do que simplesmente se encaixar em um gênero musical.”
Essa dimensão rítmica e de resgate ancestral dialoga de maneira frontal com as inquietações e neuroses da vida metropolitana que permeiam a seleção de ficção. Os dramas urbanos eclodem na instabilidade e na luta de classes de O empregado e o patrão (2021), de Manuel Nieto, na violência abrupta escrutinada no curta Mala Facha (2023), de Ilén Juambeltz, e nas contradições da classe média expostas de forma brilhante no premiado longa Cachorros (2025), de Gerardo Minutti. A seleção ainda corrige uma lacuna histórica da primeira edição ao resgatar Carlos, Cine-retrato de un caminante (1965), trabalho seminal do mestre do documentário uruguaio Mario Handler, que inspira toda uma nova geração.
Inevitavelmente, o peso histórico e político do país é uma presença constante e incontornável. No dia 23 de outubro, a programação se volta integralmente à figura do ex-presidente José Pepe Mujica. “A figura do Mujica perpassa toda e qualquer reflexão a respeito da sociedade uruguaia, tanto em relação interna quanto externa”, pontua o curador. A data conta com a exibição de Uma noite de 12 Anos (2018), de Álvaro Brechner — o duro e premiado retrato dos anos de cárcere e tortura de Mujica e seus companheiros durante a ditadura —, e do documentário Os sonhos de Pepe (2024), de Pablo Trobo. A homenagem culmina em um debate com o crítico de cinema Carlos Alberto Mattos, a produtora Mariana Bezerra e o professor uruguaio Luis Héctor Oliveira, antigo companheiro de militância do ex-presidente.
Para instigar ainda mais essa dinâmica política, a curadoria incluiu uma provocação deliberada: o olhar de um brasileiro sobre as transformações do país vizinho. Ao refinar a seleção e abrir mão de revisar clássicos contemporâneos como 25 Watts (2001) para priorizar a década de 2016 a 2026, Leonardo sentiu a necessidade de incluir o documentário Uruguai na Vanguarda (2019), de Marco Antonio Pereira. A obra investiga conquistas progressistas uruguaias, como a legalização da cannabis e do aborto, traçando um paralelo direto com o Brasil. “O olhar sobre o outro sempre provoca, de alguma forma, ruídos, mas é também saudável ao cinema as contradições e dialéticas que surgem nesse espaço do estrangeiro”, argumenta.
No campo estético, o evento celebra vozes que desestabilizam expectativas formais e revelam uma gramática narrativa autônoma, distanciando-se do tradicional e inescapável paralelismo com o cinema argentino. A grande evidência dessa maturidade é o trabalho dos codiretores Marcela Matta e Mauro Sarser. Os modernos (2016), rodado em preto e branco, investiga as crises amorosas de intelectuais montevideanos com um frescor analítico que, segundo Leonardo, remete aos áureos tempos de Woody Allen. Já Morto com Glória (2021) dá um salto estético arriscado ao fundir comédia romântica e terror de forma completamente insólita, ecoando o clássico subgênero do “terrir” notabilizado no Brasil por Ivan Cardoso, para discutir a idealização romântica e a independência feminina. “Eu acredito que o cinema uruguaio tem tanta pluralidade de olhares e gêneros quanto o argentino. Ao falar da vila, da cidade e do povo, todos acabam se aproximando de alguma forma no cinema latino-americano, porém sempre existem particularidades únicas nesses retratos”, defende.
Com sessões na Unidade Passeio da CAIXA Cultural, atividades de formação essenciais como a masterclass da diretora Marcela Matta (em 31/10) e uma sessão de abertura inclusiva do elogiado longa Agarra-me forte (indicado ao Goya) — coroada por um show intimista de TAMY —, a mostra confirma a vitalidade inegável de uma cinematografia que aprendeu a olhar para as próprias fraturas com rigor e invenção. O cinema uruguaio que reencontra o Rio de Janeiro prova que deixou definitivamente de ser um esforço artesanal e solitário. Tornou-se uma indústria vibrante, madura e plenamente capaz de narrar a si mesma com a complexidade que os nossos tempos exigem.