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Há mesmo uma trilogia sobre “O Silêncio de Deus” na obra de Bergman?

09.04.2026
Por Luiz Fernando Gallego

Há mesmo uma “Trilogia do Silêncio de Deus” na obra de Ingmar Bergman?

Para embasar tal visão, ainda por cima o terceiro filme deste suposto grupo traz como título “O Silêncio”, mas Bergman dizia não ter certeza de que este, com as duas realizações anteriores, os três lançados em sequência entre 1961 e 1963, formariam uma trilogia por um tema em comum. Isto surgira como proposta de um crítico de cinema durante uma entrevista. Alguns anos depois da entrevista ter sido publicada - e bastante divulgada - dando origem até mesmo a um livro com os três roteiros reunidos (ver foto), Bergman declarou que ficara envaidecido com tal abordagem na época, mas que a ideia do "Silêncio de Deus" nem fazia mais parte de suas preocupações: poderia ainda ter estado presente – e talvez com pertinência - na década de 1950 em "O Sétimo Selo" (1956) ou "A Fonte da Donzela" (1959), curiosamente ambos passados em tempos medievais.

1. Penso que há uma questão nesta menção de Bergman à "Fonte da Donzela" em que um possível milagre acontece no final - e milagres são manifestações divinas, portanto Deus não estaria tão silencioso ou ausente na vida daqueles mortais...

Por outro lado, a barbaridade de um estupro coletivo seguido de assassinato e posteriores atos de vingança ritualizada e violenta podem talvez atender à ideia da ausência de Deus entre nós. Mas, então, o milagre do surgimento de uma fonte no final seria apenas uma manifestação atrasada - e inútil - da divindade? Uma ironia de Deus ou do cineasta? Ou este estaria mostrando, inicialmente, uma religião “primitiva” na idade média sueca anterior à chegada do cristianismo (a invejosa empregada da donzela do título recorre a algum sortilégio pagão) em contraste com o milagre da fonte que revelaria uma mensagem cristã do perdão de Deus para quaisquer crimes ou maldades? Ou seja, Deus estaria silencioso para aqueles que ainda não O haviam encontrado conforme as premissas cristãs?...

Também é sabido que Bergman não tinha este filme em alta conta: além do roteiro não ser seu - e baseado numa lenda medieval - ele contava que, durante suas filmagens supunha que estaria criando uma obra-prima à moda de filmes de Akira Kurosawa que ele tanto admirava, mas que, depois de pronto, achou que fez apenas uma imitação empobrecida de Kurosawa. Não estava entre os filmes de que se orgulhava.

- É fato, entretanto, que ficou meio cristalizada a ideia de que "Através de um espelho", "Luz de Inverno" e "O Silêncio" formam uma trilogia sobre o silêncio de Deus junto à crítica e ao público cinéfilo.

2. Em suas autocríticas, Bergman também fazia reservas ao desfecho de "Através de um espelho" quando pai e filho dialogam sobre o amor; ele via este epílogo como um recuo face ao que acontecia antes quando a personagem de Harriet Andersson, num surto, dizia “vi Deus e ele é uma enorme aranha - e nós, seres humanos, moscas em sua teia”. Aqui, mais do que apenas silencioso, Deus seria uma entidade monstruosa que zomba de nossas crenças nEle. Por isso, o epílogo sobre o amor, após a internação psiquiátrica da personagem feminina, teria sido algo "covarde" na reflexão que ele fez a posteriori.

3. A questão da crença ou descrença em Deus, já bem desenvolvida em "Sétimo Selo", vai ser retomada no pastor interpretado por Gunnar Björnstrand em "Luz de Inverno", talvez o mais bem-sucedido dos três filmes arrolados como a tal trilogia (e, este sim, seu filme preferido conforme algumas fontes): desta vez, não se tratava da existência - ou não - de um Deus criador que após a criação nos abandonou e deixou-nos sem respostas, silencioso e indiferente ao nosso desamparo: o pastor não crê mais neste ou em qualquer Deus, embora no final cumpra o papel que lhe cabe, chamando os (pouquíssimos) fiéis presentes à missa para a comunhão. Aliás, o título original sueco seria traduzido como "Os comungantes", e em algum países foi intitulado "Os Convidados para a Comunhão".

4. Por fim, voltemos a "O Silêncio" [ATENÇÃO: SPOILERS], o mais enigmático dos filmes de Bergman antes de "Persona" (1966) - e com o qual tem algumas semelhanças: duas personagens femininas numa relação de afetos frustrados e ressentimentos intensos. Aqui, num país estrangeiro cuja língua elas não entendem. Há sugestão de uma guerra indefinida (tema que ele vai desenvolver em "Vergonha", de 1968) e, por algum motivo, essas duas mulheres (que são irmãs) fazem uma parada nesta cidade, talvez porque uma delas, Esther (Ingrid Thulin) esteja adoentada.

A outra irmã (Gunnel Lindblon) tem um filho de, no máximo, dez anos, mas ela o deixa no hotel em que se hospedara com a irmã e sai em busca de sexo. Esther é uma intelectual, traduz livros (embora não conheça a língua do lugar onde se encontram), talvez seja lésbica mal assumida - ou mesmo nada assumida - mas pode sentir-se atraída pela sensualidade explicita da irmã.

O hotel, de ar rococó decadente, pode lembrar o barroco do hotel de "Ano passado em Marienbad", filme quase contemporâneo, de Alain Resnais, lançado em 1961.

O menino, meio que abandonado pela mãe (que saiu atrás de homens ou que dormira despida durante o dia após pedir ao garoto que esfregasse suas costas, nua, durante um banho) transita pelo hotel que pode lembrar alguma coisa dos corredores labirínticos de "Marienbad", porém mais soturnos.

Ele encontra um grupo de anões-atores de uma trupe algo circense, e de algum modo, a baixa estatura serve como aproximação mútua em cenas bizarras quando os artistas usam seus vestuários teatrais para o garoto usar uma roupa feminina.

Ele percebe sua mãe entrando com um homem num quarto vazio do hotel (que parece mesmo estar totalmente vazio, exceto pelos anões e pelas duas irmãs com o menino) e Esther fica sabendo, chegando a entrar no quarto onde a irmã está tendo relações sexuais com o desconhecido, sendo humilhada pela outra.

Cada vez mais irritada com Esther, a irmã resolve seguir viagem deixando-a, cada vez mais adoentada, no hotel. O menino leva consigo um papel amassado que a tia lhe deu com a tradução de uma palavra da língua estrangeira, talvez a única que ela conseguiu entender. Não vemos essa pequena tentativa de reduzir o silêncio das incompreensões retratadas pela babel das linguagens. Neste sentido é que o silêncio do título estaria concretizado no não-"diálogo" entre Esther e um idoso funcionário do hotel (que muitos críticos associaram a uma representação da Morte). Quando ele fala com ela, não se escuta o som de sua voz nem as palavras que ele está pronunciando na língua que Esther não conhece (e nem nós, os espectadores). Apenas quando ele liga um rádio e se escutam uma música clássica, ele fala o nome do compositor - e o escutamos, uma única vez, dizendo o nome "Bach", um dos maiores compositores de músicas religiosas, talvez O maior, possivelmente um crente em Deus, até mesmo já chamado de "quinto evangelista” do cristianismo.

A solidão de Esther acentua-se pela dificuldade de comunicação verbal - e também sexual (há uma ousada, para a época, cena de masturbação feminina) e, penso, o filme se aproxima mais de uma outra dita trilogia - ou tetralogia – mas de outro cineasta, Michelangelo Antonioni, sobre o tema da incomunicabilidade (“A Aventura”, “A Noite”, “O Eclipse” realizados entre 1960 e 1962. Alguns incluem “O Deserto Vermelho” de 1964 neste grupo - e até mesmo o mais antigo “O Grito”, de 1957). [Aliás, prefiro "O Silêncio" aos filmes de Antonioni envelopados neste outro rótulo, sem desmerecer deles, que fique claro; uma questão de preferência pessoal. Mas posso acrescentar que prefiro “O Grito” dentre eles - e acho “O Deserto vermelho” apenas digressivo, valorizado apenas pelo uso das cores].

5. Para concluir, chamo atenção para o fato de que, entre as atrizes que mais participaram de filmes dirigidos por Bergman, era a Ingrid Thulin que ele entregava os papeis mais insólitos e perturbadores: um jovem rapaz, um travesti, em "O Rosto" (1958); a irmã distante que fere seus genitais em "Gritos e Sussurros" (1972); a amante (morta) do pintor de "A Hora do Lobo" (1968), morta, nua e gargalhando! A 'Esther' que se masturba em "O Silencio" (1963). A mulher que ama o pastor de "Luz de Inverno" (1962), menosprezada por ele por ter uma doença de pele que ele acha repugnante...

Exceção: a nora de Victor Sjöstrom em "Morangos Silvestres" (1957), uma personagem bem mais suave, mas sem deixar de ser forte e decidida, verdadeira e assertiva. Outra exceção (no sentido inverso, ou seja, outras atrizes ‘bergmanianas’ em papéis muito difíceis): a atriz muda de "Persona" - que revelou Liv Ullmann - e a enfermeira cuidadora, Bibi Andersson, com seu longo monólogo erótico confessional, duas interpretações excepcionais. Mas às quais Ingrid Thulim não ficava devendo nada.

6. E o "silêncio de Deus" em "O Silêncio"? Ao rejeitar a ideia de uma trilogia sobre este tema e mencionando outros filmes anteriores, de certa forma, acho que Bergman afastou "O Silêncio" da temática ligada a “Deus e sua ausência” na vida cotidiana dos seres humanos. O silêncio do título me parece mais ligado à já mencionada incomunicabilidade entre as pessoas, à ausência de afeto genuíno entre as irmãs e à solidão e isolamento do menino (e de todos nós?). Aliás, o mesmo jovem ator, um pouquinho mais crescido, aparece em cenas enigmáticas de "Persona", talvez um filho rejeitado pela atriz ou o filho que a enfermeira não teve?

Melhor fugir de rótulos e hipóteses vagas sem tanta base e apreciarmos os filmes de Bergman como ouvimos música pura, sem explicações, sem roteiro programático, sem buscarmos "significados", tolerando o mistério e o não-saber, como dizia Buñuel preferir que seus filmes fossem vistos. Os psicanalistas podiam interpretar intenções inconscientes, mas ele dizia sempre preferir o mistério dos sonhos (e dos filmes) às suas interpretações.



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