
No flashback da infância do protagonista Julien Dandieu, ele caminha pela floresta e recebe lições do pai de como abater animais selvagens: “estes são os cartuchos de caça”, sinaliza ao filho empunhando o fuzil. Esta pequena passagem se torna extremamente simbólica para a narrativa ao traduzir o método de sobrevivência na 2ª Guerra Mundial: caçar ou ser caçado. É também uma metáfora visual do comportamento animalesco e destituído de humanidade dos nazistas que ocupam a França naquele período.
O velho fuzil apresenta uma perspectiva diferente do confronto bélico ao retratar um médico cirurgião em meio à trágica invasão alemã em 1944. Ele chefia um hospital aos frangalhos, repleto de destroços físicos e emocionais, com pacientes à beira da morte na enfermaria. É um personagem multifacetado e vivendo uma dicotomia: cuidar e proteger terroristas mesmo que isso custe a própria vida. Nesse momento, o hospital sofre uma invasão nazista, cujo comandante está à procura de comunistas, partisans (aqueles que lutam contra a ocupação estrangeira) e desertores. O Dr. Dandieu afirma peremptoriamente ao militar: “eu não faço política”. Portanto, ele está ali para cumprir seu juramento ético e moral como médico, tecendo um retrato pacifista e humanista do personagem. Esta descrição passa a ser determinante na compreensão de sua transição e ruptura no segundo ato da história.
Para proteger sua família da tragédia da guerra na cidade – com mortes e bombardeios cada vez mais próximos –, Dandieu envia sua mulher e filha para seu castelo campestre, localizado numa pequena província francesa, com o pretexto de encontrá-las num futuro próximo. A estrutura do filme passa a incorporar o tempo bélico presente e flashbacks do relacionamento amoroso com a família e a comunidade local. Em uma dessas transições de montagem, Dr. Dandieu – interpretado pela força da natureza chamada Philippe Noiret – vai visitá-las e encontra o microcosmo daquele espaço completamente em ruínas, além de inúmeros corpos espalhados e destroçados por balas. Torna-se bastante simbólica graficamente a chacina dos moradores em meio a uma missa na pequena igreja local, em especial pela composição do plano com indivíduos caídos em frente ao altar, santos quebrados e posições de súplica.
Ao localizar, logo em seguida, a filha morta no descampado e o corpo incinerado da esposa próximo à entrada da própria residência, Dandieu se transfigura novamente naquele menino caçador da infância, em busca de vingança contra a brutalidade incompreensível praticada pelo homem. O flashback começa como se ele mesmo estivesse presenciando a cena diante dos próprios olhos. É através do olhar em choque desse personagem – mesmo já tendo presenciado a catástrofe in loco e frontalmente no hospital – que O velho fuzil reafirma os horrores da guerra e questiona o seu real sentido.
FICHA TÉCNICA
Drama, 1975, França, 98 minutos.
Direção: Robert Enrico
Com: Philippe Noiret, Romy Schneider e Jean Bouise
Formato de tela: widescreen anamórfico – 1.66:1
Distribuidora: Versátil Home Vídeo (www.versatilhv.com.br)