DVD/Blu-ray


LOUCURA DE AMOR

De: Juan de Orduña
Com: Aurora Bautista, Fernando Rey, Sara Montiel
27.01.2026
Por Leonardo Luiz Ferreira
Uma alegoria sobre o poder

O cineasta espanhol Juan de Orduña revisita e ressignifica a Espanha no período do Império pela luz do melodrama, da exacerbação dos sentimentos, em uma encenação de um período histórico com uma visão bastante particular sobre a rainha Joana I de Castela (1479-1555), que recebeu a alcunha de Joana, a louca ao colocar o amor pelo marido Filipe de Habsburgo acima de suas obrigações como líder de uma nação. E ao contrário de uma leitura superficial sobre os fatos, o filme Loucura de amor – também intitulado no Brasil como Delírio de amor – reflete sobre o papel da mulher na Monarquia e questiona a versão de seu descolamento da realidade em uma alegoria sobre poder, que tanto revela a respeito do século XV quanto da atualidade.

O roteiro é baseado em uma peça teatral de 1895 escrita pelo dramaturgo Manuel Tamayo y Baus, que foi encenada na Espanha com o título de La Locura de Amor. A primeira adaptação cinematográfica da obra ocorreu em 1909 – portanto, no período do cinema mudo –, com um média-metragem dirigido por Ricardo de Baños e Alberto Marro, antes de se transformar num dos clássicos melodramas espanhóis nas mãos de Orduña. A mesma história ainda é refeita, em 2001, pelo diretor Vicente Aranda – um dos principais nomes do movimento catalão Escuela de Barcelona, com inspiração direta na Nouvelle Vague francesa –, com o título de Juana, la loca.

A mise en scène em Loucura de amor intercala planos médios de composição com vários atores em quadro, closes em pequenos detalhes (o mais marcante no velo de ouro e na lareira que iniciam o flashback) e travellings para frente e zoom in de aproximação dos personagens. A notável direção de câmera se concentra fundamentalmente na narrativa clássica em enquadramentos que reforçam tanto partes técnicas de fotografia e direção de arte quanto interpretações: os closes de rostos sugerem muito mais do que somente a leitura de diálogos, eles trazem ambiguidade e camadas dos personagens, como o claro-escuro que envolve a personagem Aldara (Sara Montiel) e os sorrisos irônicos e de soslaios de Don Filiberto de Vere (Jesús Tordesillas) – o verdadeiro mestre das marionetes das intrigas e conspirações da nobreza palaciana.

Para além do melodrama romântico, o longa-metragem revela um olhar cínico, preciso e decadentista para a casta nobre espanhola. Esta em uma disputa pelo poder e suas benesses, colocando uma lupa na relação abusiva e adúltera entre Joana e seu marido. A trama passa, então, a ser moldada por uma conspiração de alcova urdida pelo desejo e ego, que culminam em uma destruição da imagem e reputação da rainha perante a Corte e a população. O amor possessivo de Joana se transforma numa maneira para diminui-la tanto como mulher quanto liderança; e a forma direta para usurpá-la do trono.

A produção marca também um duelo de interpretações femininas entre as atrizes Aurora Bautista e Sara Montiel em chaves distintas de entonação melodramática: o choro e a verborragia emocional de Aurora no contraste da vilania vingativa de Montiel, que são exemplares clássicos e requintados de uma dramaturgia que chegou depois à televisão. Não há como refletir sobre o presente da arte sem revisitar o passado, e Loucura de amor, tantas décadas depois de sua realização, indica mais caminhos que portas fechadas, tanto para o cinema popular quanto a teledramaturgia.



FICHA TÉCNICA

DVD, Drama, 1948, Espanha, 107 minutos.

Direção: Juan de Orduña

Com: Aurora Bautista, Fernando Rey, Sara Montiel

Formato de tela: fullscreen – 1.33:1

Distribuidora: Versátil Home Vídeo (www.versatilvh.com.br)

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