Festival do Rio BR 2002


FALE COM ELA (por Susana Schild)

26.09.2002
Por Susana Schild
FALE COM ELA (Hable Con Ella) - Panorama do Cinema Mundial

Espanha, 2002. 112 min. Legendas em português.

De Pedro Almodóvar.

Com Javier Camara, Dario Grandinette, Leonor Watling, Rosario Flores.

Circuito: dia 28 (Estação Paissandu, 16h30 e 21h30), dia 29 (Roxy, 14h e 19h), dia 1 (Espaço Unibanco 1, 21h30), dia 9 (Odeon BR, 15h)





Simplesmente magistral. Fale Com Ela, último filme de Pedro Almodóvar, representa não só mais uma constatação da sua extrema liberdade criativa como a evidência de um diretor que vem utilizando seu amadurecimento artístico para prosseguir na investigação de seu tema por excelência: as paixões desmedidas no que têm de mais singular e que florescem alheias a normas de conduta e adestramento moral e social.



Vejamos: dois homens que não se conhecem assistem, lado a lado, a um balé de Pina Baush. Seus destinos se unirão por um mesmo diagnóstico: as mulheres que amam estão em coma irreversível no mesmo hospital. A postura dos dois homens diante da tragédia não poderia ser mais díspare: Benigno (Javier Camara, excepcional), não só "conversa" com Alícia, contando-lhe filmes tal como acontecia no cárcere de O Beijo da Mulher Aranha, como transforma os cuidados com o corpo inerte em ato de erotismo (filmado com grande sensualidade) e de amor. Já Marco não consegue "falar" com Lydia. O encontro de Benigno e Marco e os desdobramentos rocambolescos da trama - incluindo uma notável citação em forma de cinema mudo de O Incrível Homem que Encolheu - poderiam recair no mero melodrama não fosse a notável sobriedade e elegância da narrativa e, sobretudo, a apresentação dos personagens.



Almodóvar nunca julgou, vitimizou ou culpabilizou seus personagens, mas nunca demonstrou por eles tanta compaixão. "Respeito a fobia dos outros", diz a certo momento Marco. E é desse respeito, sinônimo de uma incondicional aceitação pelo que é humano, que fala esse filme. Sem medo de escorregar, Fale Com Ela aposta no amor, por mais bizarro que possa parecer, como uma força vital e transformadora. Possivelmente, o melhor filme de Almodóvar, e desde já, um dos melhores do ano.

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