Após 30 anos de sua realização, o filme Tudo Bem (1978), de Arnaldo Jabor está sendo relançado em cópia restaurada (e modificada) pelo próprio autor. É uma boa oportunidade para o cinéfilo conhecer um pouco da obra do diretor, já que as gerações mais recentes o conhecem mais pelo seu trabalho como colunista. Mal sabem estes da qualidade e da inteligência dos filmes de Jabor, principalmente suas adaptações para o cinema de algumas obras de Nelson Rodrigues.
Influenciado pela Nouvelle Vague, Jabor abordou basicamente temas políticos e dilemas amorosos em seus filmes. Em Tudo Bem, o diretor brilha ao abordar diversos temas (políticos, sociais, psicológicos, carnavalescos) em um espaço tão exíguo: uma casa de uma família da classe média.
O roteiro "de fundo" é aparentemente simples: Juarez (Paulo Gracindo) é um aposentado do IBGE. Teve uma carreira (de 30 anos) exemplar em termos morais, mas reflete acerca dessa correição (teria valido a pena?). Três amigos seus, mortos, aparecem para o aposentado na biblioteca e dão o tom da discussão política da época (há um embate entre um nacionalista, um capitalista, e um poeta insano). Juarez é casado com Elvira (Fernanda Montenegro), que acha que é traída pelo marido com uma ninfeta. A esposa "contrata" a própria empregada para fazer um "trabalho" para recuperar o desejo do marido por ela.
O casal tem dois filhos: Vera Lúcia (Regina Casé) que faz de tudo para arrumar um marido rico; e José Roberto (Luís Fernando Guimarães), recém-promovido a um alto cargo em uma multinacional. A família decide reformar a casa e contrata uma empreiteira que disponibiliza vários operários para executar a obra. Jabor põe em conflito, assim, três classes sociais: baixa (operários), média (Juarez e Elvira) e alta (os filhos Vera e José Roberto).
Enquanto trabalham, os operários (Stênio Garcia é um deles e tem atuação primorosa) contam casos de suas vidas, fazendo um eficiente retrato das condições materiais das favelas do Rio de Janeiro. As cenas são hilárias - Jabor expõe, sem rodeios, as marmitas de cada operário da obra, as roupas aos trapos, a ignorância diante da manipulação do patrão. Paralelamente, as empregadas da casa são figuras exóticas. Uma é macumbeira e angaria uma multidão para dentro da casa para um ritual. A outra se chama Zezé (Zezé Motta), que é empregada de dia e prostituta à noite.
Tudo Bem é perspicaz pelas inúmeras referências que podem levar à reflexão. Basta dizer (1) que um dos operários traz para dentro da casa, durante a obra, toda a sua paupérrima família, recém-chegada do Piauí; (2) Paulo César Peréio surge como noivo da filha do casal e empresário, que tenta vender os benefícios do satélite(!) para a vida das pessoas; (3) dois operários se engalfinham por uma banana(!), provocando um excêntrico assassinato cuja arma é uma marreta; (4) uma madame tenta furar fila no ritual espiritual da empregada.
O mérito de Tudo Bem se dá pela riqueza de temas sugeridos, pela plasticidade alegórica (o filme é teatral, carnavalesco), pela comicidade bem dosada e criatividade do roteiro. A metáfora do filme desvenda um Brasil com diferenças sociais bem distintas, com ricos fazendo falcatruas para resolverem seus problemas; mistura sincretismo religioso, loucura, traição, volatilidade do amor. Para o cinéfilo, ver/rever Tudo Bem é um deleite; e se o filme, com todos os temas/problemas sociais abordados, não envelheceu após 30 anos, é uma tremenda vergonha - para o Brasil.
WELLINGTON MACHADO DE CARVALHO é formado em Filosofia