Críticas


DOSSIÊ TARANTINO: BASTARDOS INGLÓRIOS (2009)

15.08.2019
Por Hamilton Rosa Jr.
O dia em que Tarantino transformou a guerra numa comédia de disfarces

A lâmina da faca de Brad Pitt é cortante e não enferruja. Os efeitos do jorro de sangue continuam chocantes, bem como a sensação da sujeira do crime, quase palpável. Bastardos inglórios pode não agradar aos puristas, mas taí um filme que parece não perder o frescor, mesmo depois de visto repetidas vezes. Curioso que Era uma vez em... Hollywood tem esse mesmo potencial. Não deve agradar a todo mundo, mas se tornará um cult para uma legião.

Não há melindres no cinema deste realizador. Ele mexe com as noções de tudo. Da geometria linear em oposição aos desvios narrativos, do cinema trash com o clássico, do bom gosto com o mau gosto. E não tem medo de misturar filme de guerra com faroeste, drama de Holocausto com comédia de disfarces. Na guerra de Tarantino, vale tudo. Tem franco atirador (Daniel Bruehl) querendo viver seu dia de ator, crítico de cinema (Michael Fassbender) bancando o espião, e atriz (Diane Kruger) se fazendo passar por uma genuína Mata Hari. Os Bastardos, bem, estes parecem a turma do fundão, brincando com o faqueiro da mãe. E Hitler, vejam só, dá gritinhos histéricos. Nesta terra da fantasia defumada pela combustão do nitrato de prata do acervo de uma cinéfila judia, emana um senso de humor ferino.

Assim como na Los Angeles de Era uma vez em... Hollywood fatos conhecidos dos anos 1960 ganham uma nova versão, a Segunda Guerra Mundial de Quentin Tarantino não é bem a que conhecemos. Ou é a que conhecemos, mas com uma significativa variação, um twist suficiente para lançar o espectador numa espécie de universo alternativo. Na cena crucial de Bastardos inglórios, quando as pilhas de rolos de película de nitrato pegam fogo e, bom, não vou dar o spoiler, apesar de ser bem conhecido o que acontece, torna-se claro que Tarantino não está reconstituindo a história. Ele toma suas liberdades. Ainda que não seja necessariamente implausível nos pormenores: porque afinal é verdade que a película de nitrato tem alta combustão (é famoso o caso de incêndio na RKO nos anos 1950) e é autêntica também a história de que o alto escalão nazista se reunia em peso para assistir às estreias de gala dos seus filmes de propaganda. O resto podemos chamar de licença poética. A começar pelo vestuário. Todo o elenco usa farda no filme. Mas se existe uma coisa que tira o mercenário Aldo Apache (Pitt) do sério é como as pessoas fazem a troca de identidades sem pestanejar. E como a guerra está acabando, Aldo se toca que será difícil distinguir quem é o inimigo na hora que todo mundo voltar a ser civil. Já pensou se Hitler raspa o bigode e tinge o cabelo de louro?

E o filme segue neste jogo de disfarces até chegar ao cúmulo de vermos um bando de espiões e nazistas num boteco, comendo chucrute, bebendo cerveja e discutindo suas predileções entre diretores de Hollywood e cineastas do staff alemão. Referências ao cinema, derivações, plágios, “homenagens”, a graça está na alegria de Tarantino de jogar tudo no liquidificador e bater. Veja só: a missão de Aldo Apache é uma referência a Os doze condenados, de Robert Aldrich, que por sua vez mais ou menos derivou no Bastardos inglórios que o diretor italiano Enzo G. Castellari dirigiu nos anos 1970, filme do qual Tarantino toma sua inspiração, recicla e reinventa, regado por uma dúzia de baldes de sangue sintético. Aldo é designado para montar um grupo mercenário mais temível que qualquer bando psicótico nazista. E a ideia é fazer os soldados alemães ficarem com medo das atrocidades que o pelotão de aliados comete. Arrancar escalpos está longe do pior que os bastardos armam, o negócio é marcar os oficiais com a suástica na testa. Paralelo a isso, existe uma história “lírica”: a da judia (Melanie Laurent) que se refugia como gerente de um cinema em Paris, o mesmo cinema que será escolhido pelo Ministro da Propaganda Nazista para uma avant-première com a presença do Führer. Tarantino orquestra para que os destinos da gerente do cinema e dos bastardos se encontrem, e o desafio é todos não serem desmascarados pelo caçador de judeus, Hans Landa. O ator vienense Christoph Waltz sobressai-se no papel deste vilão, certamente o mais imprevisível e assustador já criado no mundo tarantinesco.

Contra toda a expectativa da moda, que parece atualmente mais favorável ao realismo, Bastardos inglórios busca o improvável, o nonsense, para reacender nossa paixão pela magia do cinema nem que seja para desfrutar, por um momento, de uma vida que podia prosperar, mas não aconteceu. Alguns vão achar uma bobagem, pura alienação, outros vão embarcar na beleza da proposta lúdica. De conclusivo, o que fica é uma ligação muito estreita entre Bastardos e Era uma vez em... Hollywood. Dentro da filmografia de Tarantino, esses dois filmes são quase irmãos siameses.





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