Críticas


DOSSIÊ TARANTINO: OS OITO ODIADOS (2015)

De: QUENTIN TARANTINO
Com: SAMUEL L. JACKSON, KURT RUSSELL, JENNIFER JASON LEIGH
16.08.2019
Por Marcelo Janot
É preciso adentrar o universo de Tarantino com um razoável conhecimento de sua obra e sem preconceito nem ódio no coração

Quentin Tarantino paga um preço alto por ter construído uma marca autoral: é permanentemente acusado de se repetir, como se isso não fosse uma de suas principais qualidades. Pior: é atacado por causa da violência de seus filmes e volta e meia ainda é chamado de racista (o livro “Race on the QT: Blackness and the films of Quentin Tarantino”, publicado ano passado, desfaz esse equívoco). Agora, com os “Os Oito Odiados”, virou até misógino na opinião de quem acha que a personagem de Jennifer Jason Leigh não deveria apanhar tanto.

É difícil argumentar com quem simplesmente não entende sua estética e suas ideias, mas será tão difícil assim enxergar que a violência na maioria de seus filmes se assemelha a um desenho animado do Tom e Jerry? Poucos devem lembrar, mas na antológica cena em que um policial é torturado em “Cães de Aluguel” ao som de “Stuck in the middle of you”, no momento crucial a câmera se move para uma parede, fazendo com que a orelha sendo decepada não seja mostrada, apenas percebida fora de quadro. Tarantino não é um sádico como o Mel Gibson de “Paixão de Cristo” e “Apocalypto”. Cenas de sangue espirrando de membros dilacerados em “Kill Bill” encontram eco na cabeça que explode com um tiro em “Os Oito Odiados”: aquela violência não tem nada de realista, sua catarse vem muito mais do riso que provoca, está mais a serviço dessa estética tarantinesca do que de um suposto regozijo no embate de vingança entre os personagens.

Há ainda os que o criticam por conta das referências a filmes de outros cineastas, o chamando de “copiador”, sem compreender que as citações não são gratuitas, como se fossem manifestações narcísicas de cinefilia. A militância cinéfila do diretor está devidamente contextualizada dentro dos filmes e a serviço da criação de uma assinatura própria que o torna um autor pós-moderno e estranho no ninho do cinema hollywoodiano. Pode-se interpretar de diversas maneiras o uso de película 70mm em “Os Oito Odiados”, seja como um ato político frente ao irreversível processo de digitalização das salas de cinema ao redor do mundo, seja como uma opção que o permite dar a exata dimensão do isolamento dos personagens na vastidão do território coberto de neve. Dentro do armazém em que os personagens ficam confinados em dois terços do filme, faz com que aquele espaço se torne menos claustrofóbico (infelizmente, o público brasileiro não tem à sua disposição uma única sala de cinema com projeção em 70mm).

Reclamam que o filme tem diálogos demais. Ora, a melhor coisa na obra de Tarantino é se deleitar com os diálogos que ele cria. Coloque quatro personagens dentro de uma diligência por quase uma hora de filme: em se tratando de Tarantino, tem-se a garantia de boas doses de humor, ironia e, nesse caso, uma espécie de prévia do embate que se dará no armazém. Neste microcosmo que de certa forma reproduz criticamente a formação da sociedade americana movida a ódio e desconfiança, o personagem de Samuel Jackson escancara o racismo latente que ainda ecoa no século 21. “Quando os negros estão assustados, aí é que os brancos estão seguros”, diz o “xerife” branco Chris Mannix. “A única maneira de um negro se sentir seguro nesse país é se o branco estiver desarmado”, fala mais tarde o Major Warren, personagem de Jackson, para justificar como uma suposta carta do presidente Lincoln para ele serve de salvo conduto naquela América pós-Guerra Civil.

Quando o roteiro parece que vai seguir por um caminho mais convencional de jogo de detetive, Tarantino faz questão de chamar a atenção para a sua presença: entra em cena o narrador que se dirige diretamente ao espectador para explicar o nome de um dos capítulos. É como se o autor que já colocou gângsteres discutindo o significado das músicas da Madonna e fez Hitler morrer metralhado por judeus num cinema francês fizesse questão de lembrar que aquele é, antes de qualquer coisa, o mundo de Tarantino. Um mundo onde Abraham Lincoln poderia ser um amigo por correspondência de um soldado negro.

No mundo de desconfiança de “Os Oito Odiados”, onde quase nada é o que parece ser, a única certeza é a de que para se sentir à vontade e desfrutar do que Tarantino tem a oferecer (o que inclui, vale lembrar, os climas construídos pela trilha sonora impecável de Ennio Morricone, que rendeu o primeiro Oscar de melhor trilha original ao compositor), é preciso adentrar esse universo com um razoável conhecimento de sua obra e sem preconceito nem ódio no coração.

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