Críticas


FILMING HANEKE

De: YVES MONTMAYEUR
Com: MICHAEL HANEKE, JULIETTE BINOCHE, MARIN KARMITZ
14.07.2020
Por Luiz Baez
Curta-metragem investiga os bastidores de Código desconhecido

A figura de um intelectual austero acompanha a imagem de Michael Haneke. Não só a rigidez de sua aparência - cabelos grisalhos, raros sorrisos e olhar compenetrante -, também sua postura pública justifica semelhantes percepções. Pouco afeito a entrevistas, Haneke raramente aceita expressar-se em outro idioma que não o nativo - o alemão - e rejeita sem pudor respostas a perguntas impertinentes - em especial, buscas por explicações causais, mensagens cifradas ou significados ocultos em seus filmes. Nesse sentido, o cineasta francês Yves Montmayeur desconstrói - ao mesmo tempo que reconstrói - a persona do diretor austríaco no curta-metragem Filming Haneke (2000), incluído pela Criterion nos extras do lançamento de Código desconhecido (Code inconnu, 2000) em Blu-Ray.

De certa maneira, Código desconhecido efetua um desejo antigo de seu realizador: em 71 fragmentos de uma cronologia do acaso (71 Fragmente einer Chronologie des Zufalls, 1994), seu terceiro longa-metragem cinematográfico, Haneke já afastava núcleos narrativos entre fades to black - cortes para o preto. Em um olhar retroativo, contudo, ele se arrependeu de entrecortar internamente as cenas, o que justifica a opção por planos-sequência meia década mais tarde, quando convidado por Juliette Binoche para filmar na França. O documentário de Montmayeur parte dessa captura do momento - ou seja, dos bastidores de Código desconhecido - para fixar na trajetória de sua personagem algumas idiossincrasias.

Ainda que não explicite a referência, a predileção pelas longas tomadas alinha-se à ideia baziniana da “montagem proibida”. Eliminando-se os cortes, parece-se acreditar na igual supressão de qualquer caráter manipulatório; longe da inocência de um determinismo maquínico, algumas ressalvas merecem destaque. Em primeiro lugar, a câmera não captura pura e simplesmente o real - há, afinal, ao menos duas mediações: a do artista e a de seu público. Trata-se, sobretudo, de uma questão de responsabilidade - a palavra alemã Verantwortung repete-se com frequência em entrevistas. Por meio de duradouros planos cuja beleza reside antes na precisão do que na harmonia, o transcorrer do tempo convoca o espectador a participar não como consumidor, mas inquiridor daquelas imagens. Em segundo lugar, as longas sequências sem corte jamais constituem um fim em si mesmas (como criticado em artigo sobre 1917), mas resultam de considerações teóricas, de uma identidade entre forma e conteúdo, e devem passar despercebidas ao espectador “ingênuo”, isto é, àquele não especializado em cinema.

Os dez minutos ininterruptos filmados no Boulevard Saint-Germain exemplificam, nessa lógica, a precisão de Haneke. Antes das filmagens e mesmo dos dois dias de ensaio, o cineasta visitava a locação para contar quantos transeuntes por ela caminhavam no intervalo cronometrado e assim definir a quantidade de figurantes. Mais tarde, nos dias de gravação, pequenos ajustes interrompem a cena: a falta de reação de um pedestre à violência ao seu redor; a necessária adequação da sintonia entre o ritmo do travelling e o do movimento humano; o acidente com um ator em uma briga ficcional levada às últimas consequências. Com base nesses relatos, talvez os detratores de Michael Haneke ganhassem argumentos para denunciar a austeridade excessiva ou a ingenuidade em pretender o real.

Contra os primeiros indícios, a relação entre diretor e elenco se revela muito mais amena. Os diálogos entre uma parte e outra sempre se invadem por sorrisos, e uma sincera imagem dos bastidores mostra uma salva de palmas puxada pelo realizador para o jovem Alexandre Hamidi. Quanto à suposição de um vínculo pueril com a realidade, Yves Montmayeur adota em seu próprio filme a mesma estratégia de Haneke: não querendo reduzir o protagonista a uma série de explicações causais, jamais convoca a palavra de especialistas ou a falsa propriedade do artista sobre a obra; como nos planos inicial e final de Código desconhecido, sugere um “aceno” ao espectador, mas não se propõe a decifrá-lo. Para a garantia de verdades cinematográficas, algo do real deve permanecer irresoluto.

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