Críticas


LÊMINGUES – PARTE 2: FERIDAS

De: MICHAEL HANEKE
Com: MONICA BLEIBTREU, ELFRIEDE IRRALL, RÜDIGER HACKER
23.07.2020
Por Luiz Baez
Entre gritos e sussurros

Apesar do suicídio nos derradeiros minutos, a sequência final de Lêmingues - Parte 1: Arcádia (Lemminge - Teil 1: Arkadien, 1979) sinalizava uma quebra, ao menos parcial, com o ciclo de desumanização da geração anterior. Nela, dois dos protagonistas se sentam de lados opostos em um trem: um por acidente; outro pelo desejo de recomeçar a vida alhures, em Viena. Enquanto um viaja “para frente” - tanto espacial quanto metaforicamente -, outro ruma “para trás”, preso a Neustadt e sua mentalidade provinciana. Nesta lógica, os primeiros segundos da Parte 2: Feridas (Teil 2: Verletzungen, 1979) ocupam-se de desfazer qualquer esperança disruptiva - no outro filme simbolizada, assim como em O tempo do lobo (Le temps du loup, 2003), pela imagem da locomotiva. 

Antes mesmo das cartelas iniciais, um automóvel acelera e acerta uma árvore. Haneke antecipa, como em 71 fragmentos de uma cronologia do acaso (71 Fragmente einer Chronologie des Zufalls, 1994), o destino das personagens, prévio à sua reapresentação. Passadas duas décadas desde o primeiro filme, os nascidos no pós-guerra compartilham com os progenitores as marcas de um período traumático. Filho de um beberrão agressivo, Fritz perpetua a violência do pai ao dele vingar-se com o sufocamento do pássaro de estimação - o incidente, ocorrido ainda na infância e relatado a posteriori, muito se aproxima da morte de Pipsi em A fita branca (Das weiße Band, 2009). Outros protagonistas, por sua vez, repetem a infidelidade dos mais velhos - tentam preencher com o sexo a angústia de uma vida desamparada das explicações outrora oferecidas pela religião e pela ciência. 

Como na primeira parte, tais Feridas também se manifestam fisicamente: um dos antigos jovens, agora um militar, vomita imediatamente após assistir a um vídeo institucional sobre a bomba atômica. Frustrada a utopia da Arcádia, quando “tudo era possível”, a realidade irrompe, provocando duas reações: para proteger-se das mencionadas feridas - resposta primeira -, a sensibilidade moderna frequentemente adota a indiferença como autopreservação - o que leva, em última instância, às próprias feridas que se buscava evitar. 

Neste sentido, Michael Haneke incorpora diegeticamente a televisão, veículo onipresente em sua obra. Quando uma personagem inquire a outra sobre aquilo que ela via, esta nada lhe revela a respeito do suicídio coletivo na comunidade de Jonestown, contemporâneo à produção do filme e mostrado pouco antes. A crítica ao mecanismo de indiferenciação televisivo funciona como na abertura de O vídeo de Benny (Benny’s video, 1992), quando a mãe do protagonista afirma a ausência de novidades no noticiário, apesar de os espectadores escutarem manchetes sobre ataques xenofóbicos, o retorno da corrupta Imelda Marcos às Filipinas e um bombardeio na Sérvia. A atitude blasé característica da urbanidade preocupa especialmente uma das personagens, grávida, cuja angústia trabalha a montagem por meio dos pequenos gestos: ao plano de um gato morto, estirado sobre a calçada, segue a falta de reação dos transeuntes e a mão da futura mãe sobre a barriga. 

Em um mundo de violência e dominação, “o que ainda importa?”: essa é a pergunta síntese de Lêmingues - Parte 2: Feridas, explicitada no freeze-frame de um olhar frontal para a câmera - técnica truffautiana repetida no encerramento de Violência gratuita (Funny games, 1997). Inserido na mesma geração por ele retratada, Haneke tenta fazer ouvir seu grito, mediado pelo ecrã televisivo - tal qual o vidro abafando um agonizante Papa Inocêncio X no quadro de Francis Bacon pendurado na parede de um dos protagonistas. Entre gritos, sussurros e o leitmotiv da sarabanda - raro uso de trilha extradiegética na filmografia do cineasta -, um ciclo de opressão parece, enfim, longe de encerrar-se.

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário