Críticas


IRREVERSÍVEL

03.10.2002
Por Luciano Trigo
IRREVERSÍVEL (Irreversible) – Panorama do Cinema Mundial

De Gaspar Noe

Com Monica Belucci, Vincent Cassel, Albert Dupontel

França, 2002. 99 min. Leg. Eletr. Português

Circuito: dia 3 (Estação Barra Point, 16h30), dia 4 (Estação Ipanema, 19h30), dia 6 (Estação Botafogo 1, 12h)



O escândalo e a violência não são, em si, critérios de qualidade (ou de sua falta) num filme. O escândalo pré-fabricado e a violência gratuita e estetizada que costumam render assunto para a mídia já foram responsáveis por algumas das piores bombas da história do cinema. Por conta disso, fui assistir a Irreversível com um pé atrás. O impacto do segundo longa-metragem do cineasta francês (nascido na Argentina em 1963) Gaspar Noe no último festival de Cannes era a única referência que eu tinha.



Metade dos espectadores deixou a sala na metade da sessão. A metade que ficou saiu da sala estarrecida. Alguns ensaiaram aplausos. Todos sabiam ter visto algo poderoso. Ninguém ficou indiferente. Depois de Irreversível a violência das imagens ganha um novo sentido no cinema.



Há pelo menos dois planos-seqüência de virar o estômago de qualquer um: no primeiro uma vingança se consuma com uma dose inenarrável de brutalidade. O segundo (vale lembrar que o filme é narrado de trás para frente) mostra um estupro/espancamento insuportavelmente longo, sem cortes, numa corajosa intepretação da bela Monica Belucci. Desnecessário dizer, dois momentos desagradáveis ao extremo.



Irreversível é violento, sem dúvida, talvez o filme mais violento que já vi. Mas sua violência maior é ser verdadeiro. Jamais veremos algo sequer parecido no cinema americano, que transforma qualquer perversidade em espetáculo e objeto de consumo. Mas nada é aleatório no filme de Noe. As duas cenas citadas estão organicamente integradas a uma crônica nervosa de nosso tempo, e são temperadas por uma reflexão sobre o destino, sobre o erotismo e, sobretudo, sobre o sentido de urgência que consome cada vez mais as pessoas, mergulhadas na busca voraz do prazer que desconhece limites e valores morais. Mais que o mal absoluto, o verdadeiro tema do filme é o fim do futuro, que implica a abolição do humano no presente. Não adianta fechar os olhos nem sair do cinema: o pesadelo continua lá fora, e retratá-lo é um mal necessário, o que Irreversível realiza com perfeição.

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