Críticas


REFLEXO DO MAL (The Reflecting Skin, 1990)

De: PHILIP RIDLEY
Com: VIGGO MORTENSEN, LINDSAY DUNCAN, JEREMY COOPER
26.11.2020
Por Luiz Fernando Gallego
O mal de toda uma nação refletido pela mente infantil em imagens de beleza acachapante.

Antes que desista de ler sobre este filme porque não curte o gênero terror, saiba que, lançado - e imediatamente apontado como “cult movie” - no Festival de Cannes de 1990, não traz entidades sobrenaturais horrendas, monstros sinistros, ou quaisquer clichês assustadores. Pelo contrário, ao vê-lo, o espectador será surpreendido por incessantes imagens de beleza acachapante, especialmente (mas não só) quando filmadas ao ar livre pelo olhar de mestre do cinegrafista Dick Pope (frequente colaborador em filmes de Mike Leigh, incluindo o que recriou pinturas de Turner) e inspiradas, principalmente, em obras de Andrew Wyeth (autor de “Christina’s World”, seu quadro mais conhecido). Tomadas de interiores, além de Wyeth, podem remeter secundariamente, pela iluminação exterior adentrando os cômodos de uma casa, ao mais conhecido Hopper. Não fosse o diretor Philip Ridley egresso das artes plásticas.

É o aspecto visual e a narrativa imagética, ou seja, Cinema com “C” maiúsculo, o maior trunfo para a mise-en-scène do roteiro que se desenrola, ainda que em meio a tanta beleza, com uma enormidade de situações insólitas e personagens quase grotescos que, com outra abordagem visual menos hábil e talentosa, poderiam se tornar insuportavelmente excessivos e caricatos. Embora, na verdade, todo o enredo seja mesmo excessivo: na conduta desagradável da mãe do personagem central, um garoto de oito anos em 1950 numa região rural norte-americana, assim como na caracterização de outros personagens secundários: um pregador religioso bêbado, um delegado com tapa-olho, um pai omisso com a mancha de suposto abuso sexual sobre um homem jovem no passado etc.

Há um forte álibi, no entanto, para a reunião de tantos “excessos”, pois o que vemos é como se fosse visto do ponto de vista do menino que está presente em todas as cenas do filme e é dotado de uma mente imaginativa igualmente excessiva. É isto que faz com que o garoto absorva a literatura barata em que o pai tenta se refugiar (das queixas e acusações incessantes da sua mulher) como indicativo de que uma vizinha - tida como estrangeira ao povoado - seja uma vampira. Não é, mas quem vai demover o pequeno Seth desta convicção?

Como aconteceria num delírio psicótico, para ele tudo vai confluir em interpretações fantasiosas de sua fértil - e igualmente escapista - mente infantil que tenta entender, com os recursos que conseguir, um mundo adulto perverso: podem ser elementos triviais para nosso olhar adulto e isento, mas também podem ser detalhes importantes que nem os adultos compreendem em toda a sua dimensão. Neste segundo caso, a perda de peso e algum pequeno sangramento de gengivas em um personagem que esteve em regiões de testes nucleares na virada da década de 1940 para os anos 1950: para o menino, tudo é prova de que a “vampira” está em ação.

Nem mesmo o fato de Seth ser testemunha à distância do rapto de outro menino em um grande carro preto daquela época o demove de que o maior perigo está na “vampira” imaginária. Até o encontro sexual dela com o irmão adulto de Seth. Paralelamente, quase toda a comunidade parece ter mais temor de um (talvez) pedófilo que já morreu do que procurar pervertidos vivos que rondam a região - mas que só Seth parece estar suficientemente disponível para ver. De fato, seu olhar vê muito e tudo o que vemos, espionando, por exemplo, a vizinha: desde a cena de abertura em que a crueldade infantil com animais se transforma em grotesca “pegadinha” contra a moça, até o envolvimento com ela por parte do idealizado irmão mais velho que volta da II Guerra (ou da Guerra da Coreia? Ou do serviço militar em Ilhas do Pacífico) desencantado com a bandeira americana que, nada sutilmente, o menino carrega em seus ombros em meio a campos dourados de trigo.

O “mal” do título brasileiro é o mal daquela comunidade tacanha e preconceituosa - ou de toda uma nação - que vai ser refletido e absorvido pelo menino. Na França o filme foi intitulado “O menino-espelho”, em outros lugares “A pele refletora” bem de acordo com o título original, uma metáfora relativa à foto de uma criança exposta à radiação nuclear e que teria ficado com a pele brilhante e totalmente espelhada.

Enriquecido por uma trilha sonora tão intensa (e intencionalmente excessiva) de Nick Bicât (que também já colaborou em um filme de Mile Leigh), temos, nos personagens centrais, Viggo Mortensen antes da fama e a ótima Lindsay Duncan num desempenho que chegou a ser premiado em um Festival. Além do menino Jeremy Cooper que parece não ter insistido muito mais na carreira de ator e que polariza a nossa atenção.

Escrito com o título de trabalho “American Gothic”, o enredo não deixa de oferecer uma história nos moldes de “romances de formação” em que uma criança ou um jovem atravessa um arco de amadurecimento no seu contato com a realidade, por mais doloroso que esse processo possa ser.

Se há “terror” neste filme, ele está mais presente na vida real e no que não se vê do que nas fantasias assustadoras de uma criança. Não é por nada que a personagem de Lindsay Duncan diz ao menino que ele vive “o pesadelo da infância”, e não sem certa dose de maldade, anuncia que “depois tudo fica pior” (com a ressalva de que nem será tão ruim se tiver alguém que o ame).

Esquecido por muitos anos depois do impacto inicial quando só era encontrado em cópias ruins de DVDs ou mesmo de Blu-rays, o filme ganhou remasterização em 2015/2016 e esta versão aprovada pelo cineasta (que só fez mais dois longas depois) faz parte da caixa “Obras-primas do Terror -13” que a Versátil lançou há pouco tempo e que inclui um documentário de 43 minutos sobre este cult-movie, além de outros cinco filmes, sendo um de William Friedkin (de “O Exorcista”) em outra incursão no sobrenatural, e outro de Curtis Harrigton, que chegou a ser considerado em filmes do gênero fantástico fora do mainstream. Três filmes transitam no formato 'há loucura da personagem (sempre mulheres) ou há mesmo algo sobrenatural ? ' com diferentes resultados, mas a caixa já vale inteiramente por oferecer ao cinéfilo “The Reflecting Skin” em suas cores originais: já que até o trigo foi pintado de amarelo mais forte pelo diretor, que o vejamos assim.

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