Críticas


MADALENA

De: MADIANO MARCHETI
Com: JOANA CASTRO, NATÁLIA MAZARIM, PAMELA YULLE
27.10.2021
Por Luiz Baez
Abdução e subjetivação

Alguns teóricos e artistas do afrofuturismo traçam um rico paralelo entre a experiência da escravidão e o imaginário de abduções alienígenas: em ambos os casos, trata-se de um violento encontro, cujas marcas e traumas se verificam ao longo de gerações e de seus estigmas. Malgrado a especificidade histórica dessa analogia, a figura do extraterrestre enquanto um corpo não contado, subjugado pela opressão cotidiana, talvez se possa estender a outros grupos em diferentes contextos. No Brasil contemporâneo, como assinala a cartela final de Madalena (2021), o assassinato de transexuais e travestis coloca o país no ingrato primeiro lugar do mundo. Uma dessas vítimas é Madalena (Chloe Milan), que intitula o filme de Madiano Marcheti, personagem muito citada, mas pouco vista, cujo nome ecoa na voz de Luziane (Natália Mazarim) como uma reiteração de seu próprio movimento identificatório. Quando, de outro modo, a moça realmente aparece, ganha contornos de espectro, o que leva à hipótese, logo descartada, de tratar-se de um espírito; mais provável, como sugere uma terceira mulher, é uma visita alienígena.

Em uma cidade sul-mato-grossense que funciona como epítome de todo o reacionarismo tupiniquim, a alienação (ou abdução) dos corpos dissidentes se manifesta sob variadas formas. Na escala macropolítica, o compromisso entre o governo e o agronegócio se traduz no casamento entre os pais de Cristiano (Rafael de Bona), um latifundiário e uma candidata ao senado. O filho, por sua vez, conjuga a concentração de riqueza (“a fazenda vai ser minha um dia”) e a reprodução de certa masculinidade – que não passa, na verdade, de uma performance esvaziada de sentido, como indica a injeção para aumentar artificialmente os músculos. O que se convencionou denominar “masculinidade tóxica”, por sinal, transparece na tela em toda sua literalidade: em determinada cena, rapazes brincam com a fumaça de suas motos, lembrando visualmente aquela emitida por pesticidas. Há, ainda, a influência estadunidense, externalizada na fachada da boate Texas, em que Luziane trabalha. No interior do estabelecimento, porém, predomina o sertanejo universitário, com suas letras que objetificam mulheres e sua perigosa relação com o agronegócio (quando o filme mostra a gravação de um clipe, os cantores sobem em cima de um trator).

Na micropolítica do cotidiano, tampouco parece haver margem para a transformação. As estações de rádio oscilam entre a crendice astrológica (“ela quer saber se Capricórnio combina com Capricórnio”) e o maniqueísmo religioso (“amanhã teremos uma guerra contra o Mal”), ao passo que os habitantes se apegam aos velhos costumes e reagem contra mudanças. O avô de Luziane, por exemplo, aposta sempre no mesmo número da loteria desde que migrou do Paraná, há 40 ou 50 anos, porque “é assim que se ganha”. Uma ruptura desse cenário adverso seria somente possível sob a égide do inesperado, de um evento que transcende quaisquer explicações únicas: esse acontecimento se chama Madalena. Sua aparição espectral ronda e assombra o reacionarismo, subleva-se como um drone que tudo vê  – espaço inicialmente ocupado pelos aparatos pesticidas, mas deles destituído com os ruídos de um corte imagético. Tamanha a sua força, Madalena dispensa o contraplano: basta a trajetória ascendente da câmera e o olhar aterrorizado de Cristiano para que ela se erija como uma presença incontornável, diante da qual não resta a seus abdutores outra alternativa senão testemunhar a própria culpa.

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