Críticas


GREAT FREEDOM

De: SEBASTIAN MEISE
Com: FRANZ ROGOWSKI, GEORG FRIEDRICH, ANTON VON LUCKE
06.05.2022
Por Maria Caú
Qual é a maior das liberdades?

A fruição de Great Freedom (Grosse Freiheit, 2021) deve ser uma experiência completamente diferente para o espectador oriundo de um país em que o retrocesso conservador não é tão evidente quanto no Brasil (incluindo Alemanha e Áustria, que produziram em conjunto o filme, vencedor de Prêmio do Júri na seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes de 2021). Para um espectador afundado na lama que o Brasil de Bolsonaro trouxe à tona, com todos os preconceitos e intolerâncias retornando do lodo, a narrativa tem menos caráter de reflexão sobre o passado do que ares de vaticínio. Esse deslocamento, no entanto, apenas reforça o vigor do filme, dirigido com maestria por Sebastian Meise, que, a partir de seu brilhante roteiro, escrito em companhia de Thomas Reider, articula três linhas temporais com uma fluência ímpar.

Narra-se o encarceramento de Hans (uma atuação soberba de Franz Rogowski, que já havia brilhado em obras como Em trânsito, de Christian Petzold) numa prisão alemã em 1968, acusado de ter violado o chamado Parágrafo 175, dispositivo do código criminal germânico que tornava as relações sexuais entre homens puníveis com períodos razoavelmente longos de reclusão. A partir dessa nova condenação, a narrativa se desdobra para revelar outros dois aprisionamentos do protagonista pelo mesmo motivo, em 1945 (quando um jovem e emaciado Hans é transferido diretamente de um campo de concentração para a prisão) e novamente em 1957.

Nesses três diferentes momentos, se mantém a tônica do flagrante preconceito que Hans sofre por sua orientação sexual, exacerbado no ambiente de masculina brutalidade da prisão (e é interessante para a delimitação desse universo fechado de masculinidade mais do que tóxica que o diretor escolha não ter nenhuma mulher em cena ao longo das quase duas obras de projeção). Nos três eixos temporais também se mantém a improvável amizade entre Hans e Viktor (Georg Friedrich, outra atuação magistral), um prisioneiro de carreira, extremamente homofóbico, mas que aos poucos se compadece de Hans, em especial por conta do passado de seu colega de cela sob o jugo nazista. Aqui o filme discute com profundidade, ainda que sem diálogos de conteúdo explícito, o apagamento histórico das agruras dos homens homossexuais durante o Holocausto – numa das cenas mais arrepiantes do longa-metragem, Hans, que trabalha como costureiro no cárcere, arranca as insígnias de um uniforme nazista para que ele seja reaproveitado. Tatuador amador, Viktor se oferece para apagar a marca dos campos de concentração que Hans leva no braço e esse primeiro toque entre os dois homens brutalizados marca na pele de Hans uma relação carregada que será o lastro de estranho afeto num universo que busca a todos insensibilizar.

A partir dessa premissa, o filme costura seus três tempos através de uma série de repetições plantadas de modo preciso: as diferentes grades, as agulhas (da máquina de costura, da tatuagem e das drogas injetáveis), o fogo (dos fósforos e dos cigarros, que muitas vezes oferecem a parca e única fonte de luz no ambiente das masmorras). Esses três movimentos abrigam flutuações nos conceitos de liberdade que evocam, com o gradual aprofundamento da relação entre Viktor e Hans, uma relação complexa e tridimensional, com elementos abusivos, que o filme aborda de forma irrepreensível, sem romantizar as marcas da violência, mergulhando na psique dos personagens sem enfocá-los a partir das lentes de um olhar sádico tão recorrente no cinema contemporâneo, e mantendo sempre o protagonismo nos sentimentos e vivências de Hans. A brilhante fotografia, assinada por uma mulher, a francesa Crystel Fournier, constrói celas no universo externo à prisão com a mesma diligência com que cria aconchegos possíveis nos cubículos dos prisioneiros. A caracterização é assombrosa de tão perfeita, o envelhecimento dos personagens endurecendo seu corpo enquanto seu espírito permanece em trânsito entre muitos muros, concretos e abstratos, com alguns oásis improváveis pelo caminho. O arrebatador desfecho é o triunfo pelo qual clama qualquer manual vagabundo de roteiro: um final ao mesmo tempo surpreendente e inevitável, que deixa o espectador paralisado em sua poltrona, incapaz de acessar rapidamente seu celular para checar mensagens enquanto ainda rolam os créditos.

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