Críticas


MÃES PARALELAS

De: PEDRO ALMODÓVAR
Com: PENÉLOPE CRUZ, MILENA SMIT, ISRAEL ELEJALDE
07.02.2022
Por Susana Schild
De olhos para o passado e para o futuro

Depois de olhar para o passado pessoal-artístico-afetivo com Dor e Glória (2019)  Pedro Almodóvar volta-se para o passado de seu país - mas com olhar fixo no presente e esperançoso no futuro. Em tempos dolorosamente negacionistas de Não Olhe Para Cima, o enfant terrible dos anos 70 - hoje, na maturidade dos  72 anos - realiza com Mães Paralelas um de seus filmes mais consistentes, sem abrir mão das marcas autorais como cores estouradas (principalmente o vermelho), enquadramentos estilosos, indefinições de gênero e,  sobretudo, um mergulho em corpos e almas femininas do século XXI.

A rigor, Mães Paralelas pode ser dividido em três atos: prólogo, miolo, epílogo. No prólogo, menções à Guerra Civil Espanhola e seus inúmeros mortos. De volta para o presente, temos Janis (Penélope Cruz), fotógrafa na faixa dos 40 anos, independente, altiva, camiseta “devemos todas ser feministas”. Envolve-se justamente com um antropólogo Arturo (Israel Elejalde), especialista em revolver o passado. Ela engravida. Ele gostaria de vínculo, mas a mulher sofre de câncer. Não dá para abandoná-la. Janis, por sua vez, dispensa convenções burguesas do século passado.  E vai sozinha para a sala de parto onde divide as dores com Ana (Milena Smit) jovem sem rumo, igualmente futura mãe solteira. E será na maternidade que germinará um melodrama de folhetim: pais desconhecidos, crianças trocadas, mães tiranas, inclusão de alguns, exclusão de outros.

Em planos claros e bem definidos, (fotografia do parceiro habitual José Luis Alcaine), Mães Paralelas flui com facilidade, apesar de alguns delizes -  a presença de uma baby sitter irlandesa, por exemplo, não faz o menor sentido. Do começo ao fim, torna-se inquestionável que, nesta trama,  as mulheres são protagonistas e donas de seus destinos e escolhas,  com direito a equívocos e vacilos como forma de autoconhecimento e aprumar o rumo.

Particularmente chegado a investigar funções maternas (Tudo sobre minha mãe, entre vários), a trama confronta galerias diversificadas da categoria - do passado e do presente.  Em elenco bem entrosado, Almodóvar encontra na parceria estável com Penélope Cruz a intérprete mais que perfeita para sintetizar femininos em colisão - consigo mesma, com seu tempo, com o passado. Talvez em sua melhor atuação, a atriz é apenas excepcional em um jeito tão Almodovar de ser.  Destaque também  para a veterana  Aitana Sánchez-Guijon, como a mãe desnaturada da jovem Ana. Teresa coloca a carreira acima de todas as coisas - e se garante como ‘apolítica’ para seguir em frente. Em participação afetiva, a figura incomparável de Rossy de Palma, velha companheira de estrada. Uma estrada que, para levar ao futuro, tem que voltar ao passado, desenterrar aqueles que, se não tiveram uma morte justa, merecem ao menos um túmulo digno. Negar o passado, parece dizer Almodóvar, é uma possibilidade de repeti-lo. Ninguém merece.



Crítica publicada em O Globo em 3/2/2022

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário