Críticas


CANNES 2022: “TRIANGLE OF SADNESS”

De: RUBEN ÖSTLUND
Com: Harris Dickinson, Charlbi Dean Kriek, Woody Harrelson
23.05.2022
Por Marcelo Janot
Uma crítica social catártica que tem potencial para se transformar no fenômeno "Parasita" de 2022

Na minha crítica de “The Square: A Arte da Discórdia”, filme do sueco Ruben Östlund que venceu a Palma de Ouro de Cannes em 2017, escrevi que entre os inúmeros temas tratados sobressaía a crítica à anestesia social que contamina as boas intenções das classes privilegiadas, como se somente quando tirados da zona de conforto por algum fato imprevisível é que mostrássemos quem realmente somos. Seu novo filme, “Triangle of Sadness”, mais uma vez em competição no Festival, é mais direto: desde o início das suas avassaladoras duas horas e meia de duração, não há boa intenção alguma por parte das classes privilegiadas e nem é preciso esperar pelo imprevisível – a hipocrisia está exposta de forma clara e direta, desde o momento em que, num desfile de moda, um telão exibe a mensagem “Somos todos Iguais” como parte do show.

O filme confirma o que já se anunciara em “The Square” e “Força Maior”: Östlund é um exímio observador do comportamento humano e sabe como poucos traduzir isto cinematograficamente. O milieu que serve como ponto de partida dessa vez é o universo da moda (o título original se refere ao nome que se dá às rugas de preocupação que se formam entre as sobrancelhas): vemos o processo de seleção a que o jovem modelo Carl (Harris Dickinson) se submete para uma campanha e em seguida a confusão que se dá num jantar entre ele e sua namorada, a modelo e influencer Yaya (Charlbi Dean Kriek). Um fica empurrando a conta para o outro até o limite do absurdo.

Mas em “Triangle of Sadness” o absurdo não tem limites: Carl e Yaya embarcam em um cruzeiro de alto luxo, uma cortesia que ela recebeu em troca de postagens para seus milhares de seguidores nas redes sociais. É nesse microcosmo que se desenvolve pelo viés do humor, em ritmo de “montanha-russa para adultos”, como o diretor definiu o filme na conferência de imprensa, uma das mais devastadoras críticas sociais perpetradas pelo cinema contemporâneo.

Uma tempestade durante o que seria um dos ápices do passeio, o “Jantar com o Capitão”, vai resultar em um caos completo, com a elite da elite econômica se arrastando entre dejetos de vômito e fezes, enquanto trancados na cabine o capitão marxista (Woody Harrelson) e um milionário russo do ramo de fertilizantes (Slatko Buric), autointitulado “The King of Shit”, fazem um duelo de frases feitas enaltecendo Marx e Ronald Reagan, respectivamente. Se você consegue imaginar uma senhora rolando dentro do banheiro de sua cabine entre um mar de vômito e fezes, se batendo contra as paredes por causa do movimento das ondas, no ápice da degradação humana, esse é o tom do filme. E é engraçado, acredite.

As sessões do filme em Cannes provocaram momentos de catarse na plateia, de ataques de riso a aplausos no meio das cenas. Parte da crítica, entretanto, não conseguiu rir e reclamou que a falta de sutileza da narrativa tiraria força do filme. É nessa hora que fica evidente como a subjetividade se impõe na análise de uma obra de arte, o que explica que um mesmo filme possa ter reações tão entusiasmadas por parte de uns e tão frias na visão de outros.

Pessoalmente, o distanciamento crítico depende da minha conexão emocional com o filme: se ele provoca em mim a mesma catarse que atinge o público, por que não descer do pedestal de “autoridade” e deixar que isso contagie a análise? A pandemia fez com que as fraturas e abismos sociais e políticos ficassem ainda mais expostos, então obras como “Triangle of Sadness”, que tratam disso de forma tão direta, se tornam necessárias nem que sejam por uma função terapêutica.

Mas acima de tudo ele é também bom cinema. Embora as situações muitas vezes beirem a caricatura de tão absurdas que são, o tom das interpretações é sempre naturalista, com ótimas performances de todo o elenco. Isso fica evidente no ato final, em uma ilha deserta. Sem dar spoilers, posso dizer que, como “Parasita”, em um dado momento o filme inverte os papéis entre o andar de cima e o de baixo da sociedade. É a sacada de mestre do diretor/roteirista até o desfecho que nos deixa pensando em como a luz no fim do túnel não passa de uma ilusão para quem sonha em subir no elevador social.

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Outros comentários
    5276
  • Luiz Fernando Janot
    23.05.2022 às 12:40

    Comentário consistente sobre o filme abordando a relevância da sua temática nos dias de hoje. Parabéns!!!
  • 5279
  • Vânia Furtuna
    28.05.2022 às 17:03

    Janot, aguardando ansiosamente por aqui. Sua crítica disiara a ansiosa contagem!!! Obrigada, e parabéns !