Críticas


CRIMES OF THE FUTURE

De: DAVID CRONENBERG
Com: VIGGO MORTENSEN, LÉA SEYDOUX, KRISTEN STEWART
18.07.2022
Por Marcelo Janot
Fica a percepção de que, oito anos após seu último filme, Cronenberg recuperou o vigor da melhor fase de sua obra.

A dificuldade de se “digerir” imediatamente um filme de David Cronenberg talvez nunca tenha sido levada tão ao pé da letra quanto em relação a “Crimes of The Future”, seu novo filme, presente na competição de Cannes*. Em primeiro lugar porque boa parte de sua filmografia fala direto ao nosso estômago, já que utiliza o corpo humano e tudo que o envolve como matéria-prima para experiências viscerais. Depois porque todo o sangue, tripas, gosma e cicatrizes que vimos em filmes como “Scanners”, “Videodrome”, “A Mosca”, “Mistérios e Paixões”, etc trazem embutidas metáforas que nem sempre são facilmente percebidas logo de cara.

As primeiras imagens de “Crimes of The Future” trazem um menino brincando à beira-mar quando sua mãe o chama pra dentro de casa. É o único momento ensolarado do filme, que logo em seguida desembocará num universo sombrio: o menino se tranca no banheiro e começa a devorar a lata de lixo de plástico para logo em seguida ser morto por asfixia pela própria mãe.

Estamos num futuro distópico em que o corpo humano por fora aparentemente é o mesmo, mas por dentro se transformou completamente, com órgãos tatuados dentro de nossa barriga, que são catalogados e controlados pelo governo. Uma das consequências dessa evolução é a total ausência de dor, o que permite que se explorem as possibilidades cirúrgicas relacionadas a um novo tipo de prazer sexual, o que faz lembrar o filme “Crash: Estranhos Prazeres”, que Cronenberg dirigiu em 1996.

O roteiro é na verdade um projeto antigo, de duas décadas atrás, e que só agora o diretor canadense tirou do papel (não tem relação alguma com seu filme homônimo de 1970). Talvez não houvesse melhor hora para que ele viesse à tona, após dois anos em que nossos corpos passaram a ser invadidos por um vírus desconhecido que se espalhava e podia levar à morte. E também porque vivemos uma era de tentativa de controle da vida dos indivíduos por parte de big techs a partir da autoexposição. No filme, o corpo humano também virou uma espécie de experimento artístico, com dois dos protagonistas do filme, Saul Tenser (Viggo Mortensen) e sua companheira/assistente Caprice (Léa Seydoux), caracterizados como “performers”.

Há muito mais a se digerir e que ficará mais evidente numa revisão. Por ora, desfrutando da mise-en-scène embalada pela incrível trilha sonora de Howard Shore, fica a percepção de que, oito anos após seu último filme, “Mapas Para As Estrelas”, com “Crimes of the Future” Cronenberg recuperou o vigor da melhor fase de sua obra.

*texto escrito durante a cobertura do Festival de Cannes 2022

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