Especiais


FESTIVAL DE CANNES 2024

15.05.2024
Por Marcelo Janot
Acompanhe a cobertura do evento com atualização diária.

ATENÇÃO: ao longo do Festival de Cannes de 2024, este artigo incorporará textos sobre os filmes exibidos, com atualização diária. Marcelo Janot está em Cannes como presidente do júri da FIPRESCI, o prêmio da crítica internacional.



MOTEL DESTINO, de Karim Aïnouz

Logo após a primeira exibição de “Motel Destino” em Cannes, assim que as críticas de veículos estrangeiros começaram a ser publicadas, um aspecto em comum entre elas chamou a atenção: os gringos ficaram muito impressionados com este estabelecimento tipicamente brasileiro que é o motel. Talvez induzidos pela definição original de motel (o hotel de beira de estrada que surgiu nos Estados Unidos com o intuito de servir como local de descanso para motoristas e famílias em trânsito), foi uma surpresa descobrir que no Brasil o motel tem como principal finalidade o sexo, por isso hóspedes não costumam ficar mais do que algumas horas, ou no máximo um pernoite.

Karim Aïnouz explicou na entrevista coletiva que enxerga o motel como metáfora de um Brasil hipócrita, em que a liberdade para a realização explícita de seus desejos e fantasias sexuais está limitada ao confinamento em locais como esse. Tal conceito ganha outras dimensões no Motel Destino do filme, um estabelecimento de quinta categoria no litoral cearense, a começar pelo que o nome sugere. É ali que se definirá o rumo que irá tomar a vida de Heraldo (Iago Xavier), depois que ele se deixa levar por uma mulher sedutora e perde o compromisso que tinha com criminosos locais. Conclusão: seu irmão é assassinado e ele percebe que passa a correr risco de vida. O lugar que lhe parece mais seguro como refúgio é justamente o motel onde a mulher lhe passou a perna e o deixou sem lenço, apenas com o documento.

Heraldo passa a viver e trabalhar escondido no motel, e seu destino passará pela relação que estabelece com os donos do local, Dayana (Nataly Rocha), gerente e faz tudo, e o agressivo Elias (Fábio Assunção), marido dela. Uma relação que rompe os limites racionais do desejo, moldado pelo instinto carnal simbolizado pela figura surreal de um jumento fazendo sexo no quintal do estabelecimento.

Embora a percepção de mundo de Haroldo inclua visões fantasmagóricas, o motel por si só já é um convite a que se embarque numa dimensão onírica. O neon e as cores fortes são ressaltadas pela fotografia da francesa Hélène Louvart, que está mais próxima de seu trabalho em “Disco Boy”, que lhe valeu o prêmio de contribuição artística no Festival de Berlim do ano passado, do que de “A Vida Invisível”, outra parceria de Karim com Hélène. Paralelamente à claustrofobia induzida pelo excesso de cores nos corredores estreitos dos bastidores do motel, nota-se outro elemento importante: os permanentes gemidos, urros e toda uma gama de sons que parecem vir dos quartos, como que relembrando aos protagonistas que o sexo é onipresente, o combustível que alimenta a vida e, consequentemente, os destinos de cada um.

É a volta em grande estilo de Karim Aïnouz a uma realidade bem brasileira, depois de exibir ano passado em Cannes “Firebrand”, produção falada em inglês que se passa na Inglaterra do século XVI. É no Ceará de “Motel Destino” que o diretor vai resgatar elementos presentes em filmes como “O Céu de Suely” e “Praia do Futuro” para retrabalhá-los em uma atmosfera que flerta com o policial noir, o thriller erótico e o drama, com um resultado quente e envolvente.



CAUGHT BY THE TIDES, de Jia Zhangke

Quando escutamos que certos cineastas fazem sempre o mesmo filme com pequenas variações, em relação ao chinês Jia Zhangke isso jamais pode ser considerado um aspecto negativo. Se filmes como “O Mundo”, “Em Busca da Vida”, “As Montanhas se Separam”, entre outros, trazem em comum não apenas a presença de sua musa Tao Zhao na tela como também documentam a transformação pela qual a China passou nas últimas décadas, em seu novo filme, “Caught By The Tides” (“Feng Liu Yi Dai”), ele dá a esse conceito de “repetição” uma nova dimensão.

Se valendo de imagens que rodou para obras anteriores e somando-as ao material recém-filmado, as mudanças sociais, políticas e ambientais em seu país ficam ainda mais evidentes, enquanto são intercaladas com uma história de amor complicada envolvendo Qiaoqiao (Tao Zhao) e Bin (Zhubin Li).

A história começa em 2001, em uma cidade no norte da China, com mulheres cantando dentro de uma sala de casa, logo dando lugar a imagens de pessoas pulando freneticamente ao som de dance music numa discoteca. Tamanha euforia parece explicada por trechos de noticiário televisivo falando do fortalecimento das reações econômicas entre a China e os Estados Unidos. O comunismo estava ruindo como o Palácio de Cultura dos Trabalhadores, com suas poltronas destruídas e um grande retrato empoeirado de Mao resistindo apoiado no chão. Em seguida, o povo celebra nas ruas a escolha para sediar os Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim.

É nesse cenário que surge o casal de protagonistas. Quase não há gestos de afeto e diálogo entre eles, mas percebemos que ela parece mais interessada na relação. Até que em 2006 ele parte atrás de novas oportunidades profissionais no Sul. A despedida se limita a uma mensagem de texto pelo celular, mas ela não desiste e resolve ir atrás dele percorrendo o país, o que serve de pretexto para o diretor inserir o elemento ficcional dentro de um contexto documental evidente.

Até que chegamos em 2022, em meio ao cenário de incerteza e paranoia causado pela Covid, onde o efeito do avanço tecnológico fica evidente em diversos momentos. Estamos na era do Tik Tok, e até na China o bizarro ganha status de celebridade, como um senhor sem dentes que tem mais de um milhão de seguidores interessados em suas dancinhas e nas “publis” que ele faz para monetizar. Qiaoqiao interage com um robô que reconhece seu semblante de tristeza e lhe oferece citações de Madre Teresa de Calcutá e Mark Twain.

Quando finalmente se dá o reencontro do ex-casal, tudo se transformou – no país e em suas vidas. Há um resquício de silenciosa ternura, até que a vida segue seu rumo em ritmo literalmente acelerado. A única coisa que parece não mudar é a delicadeza com que Jia Zhangke extrai poesia e sentimento da relação ao mesmo tempo afetiva e melancólica que tem com o seu país e seus personagens.



LULA, de Oliver Stone (Fora de competição)

A première mundial do documentário “Lula”, em sessão de gala no domingo com a presença do diretor Oliver Stone, lotou o cinema em Cannes. Boa parte da plateia era formada por brasileiros que transformaram a sessão num happening: vaiavam quando Bolsonaro aparecia em cena e cantaram músicas pró-Lula no final. Muitos estavam emocionados quando as luzes se acenderam sob longos aplausos para o filme e o diretor. A segunda exibição, na manhã seguinte, não encheu nem um terço da sala, algumas pessoas saíram no meio da sessão (algo comum no corre-corre dos Festivais) e os aplausos ao final foram tímidos e protocolares.

Em tempos polarizados de “guerras de narrativas”, em que cada lado ideológico quer puxar a brasa para a sua sardinha, é importante deixar claro o que de fato se sucedeu fora das telas antes de passarmos ao filme.

Nos últimos 10 anos, com exceção do filme de ficção “Snowden”, estrelado por Joseph Gordon-Levitt, Oliver Stone dirigiu diversos documentários políticos, uma tendência que vem desde 2009, quando ele percorreu a América do Sul observando a realidade política do continente no filme “Ao Sul da Fronteira”. Entre os entrevistados, estavam os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. De lá pra cá, realizou docs no formato de longa-metragem ou série de TV sobre Fidel Castro, Chávez (“Mi Amigo Hugo”), Putin, JFK e agora Lula.

Oliver Stone não esconde, desde o primeiro minuto, que este é um filme-tributo a um herói da resistência democrática. O diretor trata Lula como amigo, da mesma maneira que se referia a Chávez. O mais interessante em “Lula”, o filme, é observar o olhar estrangeiro sobre o presidente e a política brasileira. De forma clara e didática, Stone relembra a trajetória do primeiro presidente brasileiro de origem pobre, reitera os feitos sociais de Lula em seus primeiros mandatos e se debruça longamente sobre as artimanhas políticas, sobretudo a Operação Lava Jato, que resultaram no impeachment da presidenta Dilma Rouseff e na prisão do ex-presidente.

Relembrando a influência americana no golpe militar de 1964, o diretor chega a sugerir, sem detalhar, uma participação dos Estados Unidos na saída quase simultânea de presidentes de esquerda sul-americanos do poder, inclusive na morte de Chávez. Curiosamente, em sua tentativa de demonizar os governos americanos, ele acaba ouvindo de Lula que Barack Obama foi muito mais nocivo nas relações econômicas com o Brasil do que George W. Bush, que recebeu elogios do brasileiro.

A última parte do filme constrói uma narrativa de suspense em relação às eleições de 2022, com uma trilha sonora épica exagerada que tem seu ápice na mistura de samba e orquestra dando um ar triunfal após o discurso final de Lula. Um artifício dispensável, que não tem a mesma força da espontaneidade que surge dos momentos em que o presidente parece bem à vontade e relaxado na conversa com o diretor. No melhor deles, Lula esclarece o que para muitos deveria ser o óbvio: “Graças a Deus eu não virei comunista”.



EMILIA PEREZ, de Jacques Audiard

O Festival de Cannes chegou à sua metade e o filme mais aplaudido e comentado da competição principal até agora, já pintando como forte candidato à Palma de Ouro, é “Emilia Perez”, de Jacques Audiard. O diretor francês já venceu o festival em 2015 com “Dheepan”, que acompanhava o drama de refugiados da guerra civil do Sri Lanka vivendo na França. Desta vez ele viaja até o México para contar a história de um dos mais violentos e poderosos chefes do cartel de drogas local, Juan “Manitas” Del Monte, que contrata uma respeitável advogada para ajudá-lo a realizar seu sonho de mudar de sexo e se tornar...Emilia Perez.

Não bastasse a originalidade do surpreendente argumento, o diretor e roteirista conta sua história, que tem elementos de thriller, drama e pitadas de comédia, no formato de musical clássico, com coreografias e atores dialogando cantando. Ou seja, uma aposta arriscada, em que tudo poderia dar errado, mas que acaba funcionando muito bem por uma série de motivos.

Em primeiro lugar, o elenco eclético em língua espanhola dá liga. A atriz hollywoodiana Zoe Saldaña tem um de seus melhores desempenhos no papel da advogada, que a permite explorar seu talento dramático, combinando bem com o brilhante desempenho da atriz trans espanhola Karla Sofía Gascón no papel-título. Dar conta de uma personagem que ao longo do filme apresenta duas personalidades tão distintas, soando convincente, não é tarefa das mais simples. A atriz e cantora Selena Gomez está supreendentemente bem no papel da mulher de Manitas.

A trilha sonora, composta pela francesa Camille e seu parceiro Clément Ducol, é outro ponto alto. Salvo uma ou outra música melosa que não funciona, os números musicais são ótimos – mesmo aquele que tem como tema a vaginoplastia, acredite.

E, por fim, vale destacar a maneira como Audiard toca em temas importantes que vão desde críticas ao machismo estrutural da sociedade mexicana à lembrança dos inúmeros mortos e desaparecidos inocentes nas disputas do tráfico. Pode-se até questionar a opção por glorificar um assassino arrependido, quase absolvendo-o de seu passado, mas dependendo do viés com que se encara a história tudo parece se encaixar, e as imperfeições passam a ser insignificantes perto do frescor tão contagiante de “Emilia Perez”.



BIRD, de Andrea Arnold

A principal referência percebida em “Bird”, de Andrea Arnold, para quem tem o mínimo conhecimento do cinema britânico, é o clássico “Kes” (1969), uma das obras-primas de Ken Loach. Ambos retratam de forma realista, com elementos poéticos, o cotidiano de adolescentes que se refugiam de sua dura realidade através da amizade com pássaros (que pode ser um falcão chamado Kes ou um homem que se comporta como um pássaro e se intitula Bird) que dão título aos filmes.

Não é a primeira vez que Andrea Arnold deixa evidente a influência do realismo social de Loach, presente em “Fish Tank” (2009) e até mesmo quando ela filma fora da Inglaterra, caso de “American Honey” (2016), ambos vencedores do Prêmio do Júri em Cannes. Pode ser que agora tenha chegado a hora da Palma de Ouro, e “Bird” tem qualidades de sobra pra isso.

Bailey (Nykiya Adams) é uma menina de 12 anos que vive com o pai e o irmão na região de North Kent. Na primeira cena do filme a vemos percorrendo as ruas da cidade de carona na scooter guiada de forma alucinada pelo pai (Barry Keoghan, de “Saltburn” e “Os Banshees de Inisherin”), que mais parece seu irmão mais velho. A energia trazida pela câmera na mão e o rock em alto volume na trilha sonora é contagiante em várias cenas e contrasta com os momentos de solidão da menina. O pai, embora carinhoso à sua maneira, é um desocupado irresponsável, e ela tem pouco contato com a mãe, que também vive em situação precária com filhos de outras relações.

Bailey gosta de filmar pássaros com seu celular para depois projetar as imagens na parede de seu quarto, uma espécie de janela para a liberdade. Até que um sujeito excêntrico, que se apresenta como Bird (o ótimo ator alemão Franz Rogowski), surge do nada em seu caminho. O nome (ou apelido) não vem do acaso: ele tem o hábito de se posicionar no topo de prédios como um pássaro de verdade.

A figura doce e generosa de Bird traz um pouco de conforto a Bailey, como uma espécie de anjo da guarda, e os dois iniciam uma forte amizade. Ele também carrega consigo um drama pessoal, mas o mistério que o cerca só será revelado no final, quando Andrea Arnold saca da manga uma espécie de epifania que nos faz acreditar no triunfo do afeto, por mais dura que seja a realidade.



THE GIRL WITH THE NEEDLE, de Magnus von Horn

A primeira boa surpresa na competição principal do Festival de Cannes foi o filme dinamarquês “The Girl With The Needle” (“A garota com a agulha”), terceiro longa do diretor Magnus von Horn. Trata-se de uma espécie de conto de fadas macabro ambientado logo após o fim da Primeira Guerra Mundial. Karoline é uma pobre operária que vive na miséria e não tem notícias do paradeiro do marido, que foi para o front. As coisas começam a mudar quando ela inicia um romance com o dono da fábrica e engravida. Nesse meio tempo, o marido reaparece com o rosto totalmente desfigurado, assumindo que não teve coragem de dar notícias antes, e é expulso de casa por ela. Mas o sonho de Cinderela vai por água abaixo quando a mãe do noivo, uma baronesa, ameaça deixá-lo sem um centavo caso ele leve adiante a ideia de casar com Karoline, que acaba sem marido, sem emprego e grávida.

O título se refere a uma daquelas agulhas de costura compridas, que Karoline usa para tentar abortar numa casa de banhos, mas é impedida pela solidariedade de Dagmar (a ótima Trine Dyrholm, de “Festa de Família”), uma senhora que usa sua loja de doces como fachada para um serviço clandestino: mediante pagamento, ela recebe bebês recém-nascidos de mães pobres para encaminhá-los para adoção por famílias ricas. Esse teoricamente é o destino do bebê de Karoline, que é acolhida por Dagmar e passa a trabalhar pra ela, mas mesmo depois de tanta desgraça, o futuro ainda lhe reserva outras surpresas.

A fotografia em preto e branco e a trilha sonora sombria já deixam claro, desde as primeiras imagens do filme, a realidade assustadora de um universo hostil a mulheres como Karoline. Expõe sem panfletarismo a aflição de mães que não puderam ou optaram por não abortar, enquanto o horror da guerra é traduzido pela condição do ex-marido, cuja deformidade vira atração de circo, seu único meio de sobrevivência. Dagmar é inspirada numa personagem verídica da Dinamarca no início do século passado, mas falar mais sobre ela seria entregar um baita spoiler. Magnus von Horn trabalha muito bem os elementos sociais que remetem aos dias de hoje dentro de uma atmosfera de suspense, e ainda consegue a proeza de terminar seu filme com uma pitada de otimismo, o que parecia impossível.



MEGALOPOLIS, de Francis Ford Coppola

No material disponibilizado para a imprensa sobre “Megalopolis”, Francis Ford Coppola termina sua apresentação do projeto dizendo: “É meu sonho que ‘Megalópolis’ se torne um favorito permanente na época de Ano Novo, com o público discutindo depois não sobre suas novas dietas ou resoluções para não fumar, mas sim sobre esta simples questão: 'A sociedade em que vivemos é a única disponível para nós?’”

A julgar pela incerteza em relação à distribuição nos Estados Unidos, que pode seguir caminho parecido ao dos lançamentos modestos que tiveram os últimos filmes do diretor, e pelas reações que o filme vem despertando entre produtores e agora entre o público de Cannes, é bem provável que seu sonho se torne uma utopia como o próprio filme.

Na sessão para a imprensa à qual compareci, parte da plateia vaiou o filme no final, um dos momentos mais tristes que o Festival de Cannes já deve ter testemunhado. Independentemente dos muitos problemas que o filme possa ter de acordo com a análise subjetiva de cada um, vaiar “Megalopolis” não é apenas vaiar a obra que acabou de ser apresentada: é vaiar Coppola e tudo o que ele representa para o cinema, é vaiar seu amor incondicional pela arte, que por muitas vezes se manifestou de forma inconsequente, delirante, com uma saudável inquietude juvenil, através de projetos ousados, arriscados, utópicos, fossem eles bem sucedidos ou não. Aos 85 anos, definitivamente Coppola não merecia isso.

“Megalopolis” é um projeto que ele começou a idealizar ainda nos anos 80, chegou a iniciar a produção em 2001 mas foi interrompido pelo 11/9, até que a pandemia deu a ele o sentido de urgência de tentar realizar seu derradeiro sonho pela última vez.

Mas vamos ao filme. Inspirado numa conspiração para tomada de poder pelo aristocrata Lucius Sergius Catiline na República Romana em 63 A.C., “Megalopolis” é apresentado como uma fábula que se passa em uma Nova York apresentada como “Nova Roma” no terceiro milênio, quando a civilização está à beira do colapso e se tornou um galho frágil na árvore da vida, segundo uma das muitas metáforas e alegorias que Coppola usa como alerta para o futuro da humanidade.

Adam Driver é Cesar Catiline, o arquiteto e sobrinho do poderoso Crassus (Jon Voight), o milionário que controla a cidade em tempos de crise econômica, e sonha em remodelar a cidade a partir de uma substância mágica capaz de redefinir o tempo, criada por ele. “Não vou deixar o tempo ter controle sobre meus pensamentos”, repete Cesar para si mesmo diversas vezes. Julia (Nathalie Emanuel) , a filha do prefeito, se envolve com ele em uma relação sem muita lógica, mas tudo no filme está a serviço da mensagem que Coppola que transmitir. Enquanto coloca seu filho recém-nascido no colo do avô, ela diz: “Você está segurando o futuro em suas mãos, não quer um futuro melhor para ele?”. Soa tão pueril que é duro lembrar que Coppola escreveu isso.

Crassus se vinga dos que tentam lhe trair aplicando flechadas com um chapéu a la Robin Hood. É para ser engraçado? Ou é apenas constrangedor? Em outro momento, vemos estátuas gigantes representando a Justiça ganhando vida e desmoronando. Há uma Virgem Vestal, cuja pureza angelical é utilizada como instrumento para arrecadar fundos para a construção de Megalopolis durante um espetáculo beneficente. A canção maçante, com coreografia e adereços de estética cafona ao estilo CIrque du Soleil, é apresentada na íntegra no filme, enquanto personagens mais interessantes, como a jornalista sedutora e interesseira Wow Platinum (a ótima Aubrey Plaza) desaparece durante boa parte da narrrativa, revelando um desequilíbrio típico de filmes que precisaram passar por uma edição à fórceps. Ao longo do filme, vemos um satélite nuclear russo se aproximando da órbita terrestre, o que é visto com preocupação pelos personagens, mas fica nisso.

Os delírios megalomaníacos de Cesar, assim como sua obsessão por controlar o tempo, podem ser explicados freudianamente pela rejeição da mãe, que revela que preferia ter sido conduzida ao hospital para tratar de uma estomatite do que para dar à luz ao filho. As citações que Coppola empilha são muitas, algumas literais, indo de Shakespeare a Ralph Waldo Emerson e Rousseau.

Em um dado momento da projeção, um ator quebrou a quarta parede e entrou no palco da sala de cinema em Cannes para, munido de um microfone, dialogar ao vivo com o que o personagem de Adam Driver dizia na tela. Uma experiência estética inusitada e sem o impacto pretendido pelo diretor.

Uma das últimas frases recitadas como um alerta é “Ainda há tanto a fazer, mas haverá tempo?”, o que parece claramente uma preocupação do próprio Coppola enfatizada reiteradamente ao longo da narrativa, até a cartela final, que clama “Por um mundo indivisível, com amor, educação e justiça para todos”. O que sabemos é que, fora da tela, o tempo é implacável, até com Coppola. Mas “Megalopolis” estará na história para a eternidade, e só por isso ele já merece aplausos.



DIAMANT BRUT, de Agathe Riedinger

O primeiro dos 22 filmes que disputam a Palma de Ouro de 2024 é também o único na competição feito por uma diretora estreante em longa-metragem: “Diamant Brut”, da francesa Agathe Riedinger. O filme é centrado em Liane (interpretada por Malou Khebizi, em seu primeiro trabalho como atriz), 19 anos, moradora de uma cidade pequena do sul da França, que ganha a vida furtando produtos eletrônicos e perfumes para revender enquanto sonha em participar de um reality show televisivo. Ao ter sua inscrição confirmada no processo de pré-seleção do reality, ela deixa clara a necessidade que sente em lapidar seu corpo, o diamante bruto a que se refere o filme, já que a beleza é seu bem mais precioso e o passaporte para se tornar uma “influencer” famosa.

Seguindo o estilo de filmes antigos de dois diretores que curiosamente também estão na competição deste ano, Andrea Arnold (“Docinho da America”) e Sean Baker (“Projeto Florida”), Agathe Riedinger oferece um retrato seco e direto de uma geração moldada pela exploração da autoimagem, muitas vezes inserida em famílias disfuncionais como a de Liane, que vive com a mãe indiferente e a irmã menor. O que mais se assemelharia à figura paterna nesse universo é justamente o cirurgião plástico. Sua busca desesperada por afeto e aceitação é ressaltada na ênfase com que a câmera privilegia o corpo da personagem, que vai se transformando ao longo do filme junto com seus sonhos.

Não dá para afirmar que estejamos diante de um diamante bruto, mas a estreia de Riedinger como diretora é promissora e digna de atenção. Estar entre os postulantes à Palma de Ouro já é um belo reconhecimento.

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Outros comentários
    5340
  • Don Kimg
    15.05.2024 às 19:05

    Show
  • 5341
  • Marcelo Araujo Menezes
    15.05.2024 às 20:19

    O Filme Motel Destino de Karim terá alguma chance como foi o pagador de promessas de 1962 esse filme Brasileiro têm chance.