Críticas


FESTIVAL DE CANNES 2026

13.05.2026
Por Helen Beltrame-Linné
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O SER QUERIDO, de Rodrigo Sorogoyen

A cerimônia de encerramento na última noite de Cannes teve algumas omissões notáveis, filmes que haviam causado algum impacto nos espectadores do festival, e que saíram sem nenhum reconhecimento do júri. O silêncio que soou mais estrondoso aos meus ouvidos foi O ser querido, do espanhol Rodrigo Sorogoyen, um dos melhores filmes que vi nestes dias de Riviera.

Já escrevi, em artigo anterior, que a premissa do filme se assemelha à do norueguês Valor sentimental, de Joachim Trier. Um diretor famoso (Javier Bardem) entra em contato com a filha (Victoria Luengo) que não vê há treze anos e lhe oferece um papel em seu novo filme. O longa acompanha a reaproximação tensa dos dois durante as filmagens.

As semelhanças se encerram aí. O ser querido tem uma energia muito diferente do longa norueguês, pois avança por meio da fricção constante entre os dois personagens. Não se trata aqui de um filme sobre tudo que não é dito, mas sim das feridas geradas por palavras e também por ações, passadas ou presentes. O resultado é uma vibração constante que permeia os momentos de tensão, embate, ternura e melancolia entre os personagens.

Não farei spoiler de tudo que vem pela frente, mas me permito revelar que tudo começa com o reencontro de pai e filha num restaurante chique de Madri. Em princípio não se sabe qual é a relação entre os dois, mas aos poucos eles vão retirando as luvas de pelica, e aparecem as ruínas de uma relação dolorosa e de muito rancor acumulado. Leio, depois do filme, que a cena de abertura dura nada menos que 20 minutos, que confesso não ter visto passar, tamanha a intensidade e competência dos atores e diálogos.

O diretor espanhol contou em entrevistas que a cena foi rodada no primeiro dia de filmagem, depois de um período de ensaio no qual os dois atores não puderam se encontrar. Além disso, o encontro foi filmado na sua íntegra: 90 minutos nos quais os atores tinham que passar pelas dez páginas de roteiro e se virar para continuar a conversa (ou o silêncio) no restante do tempo.

É o tipo de artifício que costuma me incomodar pela manipulação que faz dos atores, que afinal de contas deveriam ser tratados como profissionais competentes o suficiente para interpretar seus papéis sem esse tipo de restrição. Mas o fato é que nunca saberemos se foi o maneirismo da direção que proporcionou o resultado tocante que se vê na tela.

A cena estabelece o terreno minado pelo qual a dupla vai navegar durante os 115 minutos restantes do filme, desta vez já no set de filmagem do longa dirigido por Martinez. Uma curiosidade: o nome do protagonista foi emprestado do Hotel Martinez, acomodação icônica de Cannes, onde o diretor e a roteirista Isabel Peña convidaram Bardem para o projeto anos atrás durante o festival.

Bardem é a força motora da obra, mas é evidente o talento de Luengo, que não se intimida em contracenar com esse monstro do cinema espanhol e entrega uma interpretação tocante, capaz de exprimir ao mesmo tempo sua insegurança e sua força. Há uma cena belíssima em que fica claro que pai e filha são ambos contadores de histórias, e o cinema passa a ser a forma que encontraram de tentar construir essa ponte sob os anos de abismo que os separam. E a grande questão do filme é esta: é possível encontrar uma narrativa comum entre duas vidas que se separam?

Mais do que isso: como um artista pode lidar com seus próprios demônios, que deixam ruínas na vida pessoal e também profissional? Numa das cenas mais fortes que vi em todo o festival, o Esteban Martinez de Javier Bardem revela o que de pior há dentro de si e faz o Gustav Borg de Stellan Skarsgård parecer ter saído de um filme da Disney – repito aqui palavras do crítico Damon Wise, da revista Deadline.

A cena rodada em torno de uma mesa de almoço – filmada durante cinco dias – dá pistas para preencher lacunas sobre a história passada dos personagens e entender melhor o protagonista. E também evidencia um dos pontos fortes do filme, além de atuação e roteiro: a montagem de Alberto de Campo, que atuou em todos os longas de Sorogoyen.

Um malabarismo formal que me incomodou foi a cinematografia, que alterna material digital com película em 35 mm, 16 mm e 8 mm, formato widescreen com 4:3, colorido e branco e preto. Sinto que o filme não precisava dessas piruetas para contar, em última instância, uma história absolutamente humana sobre a dificuldade de se conciliar os nossos demônios. Mas nada que diminua a intensidade dessa viagem tocante pelo que há de mais belo e mais terrível na natureza humana.


UM FESTIVAL, SESSENTA FILMES, DUAS PREMIAÇÕES

Na sexta-feira aconteceu a premiação da mostra Um Certo Olhar, uma cerimônia sempre informal, diferente do absolutamente protocolar da Seleção Oficial que aconteceu ontem, encerrando o Festival de Cannes. Por aqui a cobertura continua nos próximos dias com críticas aprofundadas sobre muitos filmes vistos na última semana.

Premiação Um Certo Olhar

A mostra Um Certo Olhar é a segunda mostra principal do festival e tem como escopo, segundo o diretor-geral, Thierry Frémaux, "fazer um apanhado geral do que acontece de jovem e excitante no cinema mundial". Em contraposição à mais séria competição oficial, esta mostra traz filmes mais ousados ou de diretores que ainda não quebraram a barreira de entrada da seleção principal.

Naturalmente, esta premiação é mais relaxada que a oficial e por vezes tem uma informalidade que beira a bagunça. Me lembro de três anos atrás quando Como fazer sexo, de Molly Manning Walker, foi anunciado como o grande vencedor da noite.

Os aplausos começaram, como é de praxe, e nada da diretora aparecer no palco. Aquele constrangimento, alguém cochicha para o mestre de cerimônia, que avisa no microfone: Walker está a caminho. Todos aguardam. Até que uma pessoa entra correndo pelo corredor, de bermuda, tênis e boné, e sobe no palco. É Molly Manning Walker, que explica esbaforida que estava na praia do outro lado de Cannes quando foi avisada. Erro da organização ou da britânica, não se sabe. Pouco importa: é aquela intimidade sem protocolo que adoramos em Cannes para além do tapete vermelho.

Nesta edição, os vencedores estavam todos presentes e vestidos a caráter, mas teve a baderna de sempre, com Frémaux interrompendo discurso, uma equipe inteira quebrando o protocolo e subindo ao palco com direito a dança coletiva e até um ator improvisando um agradecimento em versos cantados.

O principal prêmio da mostra Um Certo Olhar foi para Everytime, da austríaca Sandra Wollner, que fez um discurso improvisado que não chegou à altura da precisão sensível e calma do seu longa, um filme que se passa em Tenerife e explora o luto. Como se percebe pelo comentário, ainda não vi o filme, então voltarei oportunamente com uma crítica quando cruzar com ele em alguma programação pelo mundo afora.

Mas, antes de chegar ao prêmio máximo, foi anunciado o prêmio do júri para Elefantes na neblina, de Abinash Bikram Shah, que subiu inicialmente sozinho ao palco, como determina o protocolo, e pediu autorização para suas atrizes (todas trans em vestidos coloridos magníficos) se juntarem a ele. Demorou pouco para que a equipe toda se juntasse a elas, e o palco foi tomado pelas quase vinte pessoas da equipe presentes à cerimônia. Infelizmente, já tinham deixado Cannes os dois coprodutores brasileiros, Tatiana Leite e Leonardo Mecchi, que tiveram papel importante na produção, trazendo ao filme inclusive uma equipe inteira de som brasileira que foi premiada com o maior reconhecimento desta categoria, o Best Sound Creation 2026. O troféu, criado pela associação Sound Week, existe desde 2017 para valorizar este aspecto da produção cinematográfica ignorado nas demais premiações oficiais.

Elefantes na neblina é um drama tocante sobre uma comunidade trans vivendo numa área rural do Nepal, ao lado de uma reserva natural onde vivem elefantes selvagens. O longa explora a tensão e intersecções emocionais entre o grupo, acolhidas ali por uma espécie de seita formada por pessoas trans, e os habitantes do vilarejo vizinho. É um filme de DNA similar a O misterioso olhar do flamingo, de Diego Céspedes, também premiado na mesma seção no ano passado e que tem sido muito bem recebido em sua exibição nos cinemas brasileiros.

O prêmio de melhor atuação masculina foi para Bradley Fiomona Dembeasset, ator originário da República Centro-Africana, que protagoniza o filme Congo Boy, de Rafiki Fariala. O longa é um tocante coming of age que acompanha o protagonista Albert, de 17 anos, que se muda para o país por força de um conflito de guerra em sua pátria originária, a República Democrática do Congo.

No espírito do filme, e confirmando o fabuloso carisma demonstrado no longa, Dembeasset agradeceu o prêmio em rimas melódicas improvisadas ali no palco, diante da plateia silenciosa da sala Debussy.

O espetáculo foi seguido por outro, quando Khaled Mouzanar, compositor libanês e membro do júri encarregado de anunciar o prêmio seguinte, iniciou sua fala na mesma melodia da improvisação musical do ator africano, uma demonstração orgânica e tocante do potencial artístico de Cannes, para além do glamour dos belos looks do tapete vermelho.

A atuação feminina foi, a meu ver, merecidíssima para o trio protagonista de Para sempre serei seu animal materno, sobre o qual escrevi aqui. Marina de Tavira, Daniela Marín Navarro e Mariangel Villegas foram laureadas pelo trabalho incrível e tocante no longa costa-riquenho de Valentina Maurel, um dos melhores dessa mostra paralela e que talvez merecesse reconhecimento maior do júri.

O prêmio especial do júri foi para a animação Le Corset (O espartilho ou Iron Boy, em inglês), de Louis Clichy, que brincou com a vitória, acostumado a ganhar somente prêmios de melhor animação. O filme já havia se mostrado um dos favoritos do público durante a vinheta inicial que apresentou todos os concorrentes aos prêmios no início da cerimônia. E, de fato, é uma obra tocante sobre um garoto solitário que vive numa área rural com um pai rígido e distante, que começa a usar um colete para compensar uma questão física.

Clichy, que acumula intensa experiência em animações 3D, inclusive para a Pixar, realizou este primeiro longa num estilo próprio de desenho e envolveu inclusive seu próprio filho na produção, fazendo a voz do garoto protagonista. Um longa que espero que chegue ao Brasil para ser assistido com igual prazer por adultos e crianças.

O último longa da seleção paralela a receber um prêmio precisou esperar o dia seguinte: Ben'imana, de Marie Clémentine Dusabejambo, o primeiro filme de Ruanda a ser exibido em Cannes, foi laureado com o prêmio Câmera de Ouro, voltado a primeiras obras de diretores estreantes no formato de longa-metragem, e tradicionalmente entregue na cerimônia de premiação da Competição Oficial.

Mais um dos filmes que não consegui ver em Cannes, o que é normal: são sessenta filmes distribuídos em dez dias de festival, o que torna impossível gabaritar a programação. Mas acredito que vale acompanhar uma oportunidade futura de assistir, pois foi relatado por muitos como um drama poderoso sobre os efeitos íntimos de um genocídio.

Premiação Competição Oficial

Chegamos então à premiação oficial e sua usual solenidade.

O júri presidido pelo sul-coreano Park Chan-wook mostrou um traço que marca o júri de Cannes há anos: uma tentativa de contemplar o maior número possível de obras com os prêmios disponíveis.

A exemplo do que ocorreu no ano passado com o prêmio do júri (dividido entre Sirat e Sound of Falling), este ano foi a vez da categoria de Melhor Direção ser dividida por dois longas.

Os diretores de Bola negra, Javier Ambrossi e Javier Calvo, foram os primeiros a subir ao palco e receber o troféu das mãos do canadense Xavier Dolan. A dupla espanhola, que ficou conhecida pelas séries Veneno e La Messias, fez um discurso emocionado sob o olhar orgulhoso de Penélope Cruz, que faz uma participação especial no longa.

Bola negra é mais um filme cuja crítica vai ficar pendente para os próximos meses. Um longa que tocou o público do festival com a exploração da interconexão entre a vida de três homens gays em 1932, 1937 e 2017. Inspirado na obra homônima inacabada de García Lorca, o longa promete fazer uma carreira de sucesso pelos cinemas do mundo e já se fala em ser a entrada espanhola para o Oscar do ano que vem.

Tive a impressão de que o longa, coproduzido por Almodóvar, trouxe a Cannes o frescor do cinema original do padrinho espanhol, que já não conseguiu empolgar com sua última obra, Natal amargo, exibido sem nenhuma repercussão (ou prêmios) na competição oficial.

Neste ponto a premiação oficial tomou emprestado um pouco da bagunça da seleção paralela: o segundo premiado, o polonês Pawel Pawlikowski, subiu ao palco em seguida dos espanhóis e ficou ali esperando sua vez de falar. Sem um protocolo claro, houve trombadas no palco, e o perspicaz polonês não se conteve ao chegar no microfone: "Isto aqui foi um exemplo de péssima mise-en-scène (o título do prêmio de direção em francês)", gerando risos constrangidos da plateia.

Pawlikowski teria sido merecedor de mais solenidade na premiação do seu excelente A terra do pai, uma unanimidade durante o festival, com sua perfeição formal, atuações excelentes de Sandra Huller e do ícone Hanns Zischler, e a mais absoluta precisão do roteiro (coassinado pelo diretor com Henk Handloegten). Nos próximos dias publicarei crítica sobre este filme, que merece uma reflexão em si só.

O discurso reflexivo do polonês foi uma contraposição natural à manifestação precedente dos jovens espanhóis: duas gerações, dois tipos de cinema, o que enriquece Cannes como vitrine do cinema mundial. O único senão imperdoável do espetáculo foram os três jovens (Ambrossi, Calvo e Dolan) conversando em cima do palco durante o discurso do polonês. Um desrespeito que talvez denuncie que ainda há coisas que as novas gerações poderiam aprender com as antigas.

Já que estamos falando nas minhas decepções, vamos à Palma de Ouro, que ficou com Fiorde, do romeno Cristian Mungiu, que subiu ao palco acompanhado de suas estrelas Renate Reinsve e Sebastian Stan.

O que penso do filme tive a oportunidade de dizer aqui, e talvez não devesse surpreender que uma obra que se assemelhou ao cinema de Ruben Östlund, já laureado duas vezes com o prêmio máximo de Cannes, tenha recebido a honraria máxima da noite. Existe neste tipo de cinema uma provocação ao espectador, que se vê num impasse moral que o empurra a discussões e debates ideológicos que parecem se sobrepor a questões artísticas e cinematográficas.

Nisso a obra talvez coincida com o cinema do presidente Park Chan-wook, que no ano passado deu o que falar com No Other Choice, filme que também problematiza questões contemporâneas. Mas é difícil acreditar que esta seria a escolha do sul-coreano, que faz em seus filmes uma exploração tão mais profunda em termos de imagem, som e mise-en-scène do que o romeno conseguiu atingir neste filme.

Na sua introdução ao prêmio, Chan-wook pode ter dado pistas sobre a escolha: a competição trouxe filmes muito diferentes e o júri também apresentou personalidades absolutamente distintas. Isto sugere que a composição do júri não ajudou, com um ecletismo aparentemente difícil de conciliar: Demi Moore, Ruth Negga, Laura Wandel, Diego Céspedes, Isaach de Bankolé, Paul Laverty, Chloé Zhao e Stellan Skarsgård.

Dito isso, não me entendam mal: Fiorde é um filme relevante que tem muitas qualidades e deverá encontrar eco nas plateias do mundo todo. E Mungiu é um excelente diretor, que conquista agora sua segunda Palma de Ouro quase vinte anos depois do primeiro prêmio pelo excelente Quatro meses, três semanas e dois dias (2007). Com isso, passa a integrar a seleta lista de nove diretores que atingiram a proeza na história de Cannes, o que o coloca em condição de disputar uma histórica terceira palma, buscada a todo custo pelo sueco Östlund.

Quem está longe desta disputa, apesar de acumular três prêmios em Cannes, é Andrey Zvyagintsev, que já havia conquistado Melhor Roteiro com Leviatã, Prêmio do Júri com Loveless e agora levou o Grande Prêmio com o excelente Minotauro, sobre o qual escrevi aqui.

O russo fez o discurso em russo, com tradução por um intérprete no palco, e terminou com um corajoso recado ao presidente do seu país, o qual certamente não estaria acompanhando a cerimônia, mas receberia o recado por algum intermediário: "ponha fim a esta carnificina. O mundo todo espera isso, e só você pode fazê-lo."

O prêmio do júri foi para um filme pouquíssimo comentado (e visto) no festival, como costuma ser o caso de obras de diretoras mulheres: A aventura sonhada, da alemã Valeska Grisebach, que havia estado em Cannes com Western na mostra Um Certo Olhar em 2017.

Exibido em sessão única no último dia do festival, quando muitos já haviam deixado Cannes, não teve sequer sessão reprise, como é praxe para os filmes em competição. O reconhecimento do júri veio como surpresa para muitos, e eu mesma não tive oportunidade de vê-lo pois já estava a caminho de casa.

A diretora chamou ao palco a búlgara Yana Radeva, que interpreta a protagonista do longa, uma antropóloga que encontra um antigo conhecido, Said, que a faz embarcar numa jornada de descobertas sobre a herança das guerras balcãs na região fronteiriça onde o filme se passa.

Um prêmio que teve ar de consolação foi Melhor Roteiro para o excelente Notre salut (Nossa salvação ou A Man of his Time, em inglês), de Emmanuel Marre, sobre o qual escreverei aqui nos próximos dias. Baseado em cartas trocadas entre seu avô e sua avó, o longa explora um momento histórico pouco explorado da história francesa: a colaboração com os alemães durante o regime de Vichy. Swann Arlaud, que havia feito o advogado em Anatomia de uma queda, merecia reconhecimento por seu excelente retrato de Henri Marre.

O prêmio de melhor atuação masculina foi, contudo, para a dupla Emmanuel Macchia e Valentin Campagne, de Coward, o competente longa de Lukas Dhont, que havia conquistado seguidores com Close e continua aqui em seu estilo que combina perfeição visual e melodrama.

Merecido ou não, o prêmio pode fazer diferença na carreira dos jovens atores, efeito que não seria visto caso ele tivesse ido para a verdadeira atuação merecedora do festival: Javier Bardem em El ser querido, de Rodrigo Sorogoyen, um dos melhores filmes do festival, absolutamente ignorado na premiação.

Diferentemente dos protagonistas belgas, que interpretam dois soldados que se apaixonam no front, Bardem enfrentou o desafio colossal de atuar como o controverso e aclamado diretor que tenta, por meio do cinema, se reconciliar com a filha que abandonou. O longa é uma aula de relações humanas e também do papel que o cinema inevitavelmente ocupa na vida daqueles que a ele se dedicam profissionalmente. Resenha também saindo no forno nos próximos dias.

Por fim, um prêmio que fez aceno a um filme extremamente bem avaliado durante o festival. O japonês Ryusuke Hamaguchi viu suas atrizes serem reconhecidas por All of a Sudden, um filme que havia conquistado corações durante o festival. Virginie Efira e Tao Okamoto foram devidamente recompensadas pela química que lhes permitiu carregar praticamente sozinhas os quase duzentos minutos do longuíssimo (e belíssimo) filme japonês.

Como sempre em premiações, concorda-se com alguns, discorda-se de outros, e vida que segue. O que fica é uma amostra fantástica do cinema mundial durante os valiosos dias em que a sétima arte toma conta da Riviera francesa.

Nos próximos dias publicaremos aqui análises de filmes que a correria de Cannes não permitiu resenhar. Então o festival terminou, mas a reflexão sobre ele continua.


FJORD, de Cristian Mungiu
MINOTAURO, de Andrey Zvyagintsev

Apesar de atuar como roteirista há alguns anos, levei um tempo para entender a importância de elementos adicionais à narrativa, como tom, gênero, ritmo, mise-en-scène e até indicação de movimento de câmera quando isso parece essencial à forma de se contar uma história.

Isso porque a narrativa é quase sempre o coração de um filme, mas são esses outros elementos ditados pela direção que vão definir a que tipo de obra cinematográfica iremos assistir. E ao bom roteirista cabe a sensibilidade de adicionar ao texto elementos que permitam uma indicação do tipo de filme que está escrevendo.

Uma história pode ser filmada de tantas formas diferentes, e talvez por isso eu tenha muita resistência em ler sinopses. Para além dos spoilers, sinto que o resumo da história é apenas um pedaço incapaz de refletir aquilo que mais me interessa num filme: o cinema que contém.

Escrevo tudo isso porque passaram pela Croisette dois dramas filmados com sobriedade sobre um conflito familiar num contexto político – a perda da guarda dos filhos num, o adultério no outro – que poderiam resultar em filmes similares. Mas, nas mãos do romeno Cristian Mungiu e do russo Andrey Zvyagintsev, resultam em obras absolutamente distintas, apesar do rigor formal dos diretores.

Começando por Fjord, de Mungiu, que tem nos papeis principais a atual queridinha do cinema, a norueguesa Renata Reinsve, e o romeno-americano Sebastian Stan, que já havia impressionado a Riviera Francesa como Donald Trump em O aprendiz, de Ali Abbasi.

Os dois interpretam um casal cristão tradicional que se muda para um vilarejo norueguês e são denunciados às autoridades locais por maus-tratos aos seus cinco filhos. Apesar da ausência de provas concretas, tem início a escalada de um processo kafkaniano no qual as crianças são tomadas dos pais, e o calvário vai se revelando na realidade um embate entre duas culturas distintas, uma delas tentando salvar as crianças de outra.

O assunto é relevante e foi escrito a partir de alguns casos reais, o que sem dúvidas conquista o público, que se vê empurrado a tomar um lado: os valores humanitários de não violência absoluta contra crianças ou a aceitação cultural de um tapa na bunda pelos pais. Um plano de avalanche que faz pensar em Força maior pode ser lido como aceno a Ruben Östlund, com que Mungiu parece ter mais em comum do que se poderia imaginar até hoje na sua cinematografia. O sueco é afeito justamente a este tipo de filme: a polarização de valores e esgarçamento de um conflito no qual não há vencedores óbvios. Muito pelo contrário: assim como no cinema cínico de Östlund, parece haver somente perdedores.

O filme virou assunto em Cannes, ou melhor, a questão temática muito mais do que aspectos cinematográficos da obra, e aí reside a divergência entre os que acham que basta que um filme traga à tona um assunto polêmico e os outros que esperam mais de um cineasta como Mungiu. Faço parte do segundo grupo.

O diretor, que realizou a obra-prima Quatro meses, três semanas e dois dias, se mantém aqui excessivamente longe de seus personagens, com diálogos que parecem mais veículos de transmissão de argumentos ao espectador. Stan está irreconhecível como o pai romeno, mas é um personagem pouco empático. Sinto Reinsve apagada como a mãe norueguesa que perde os cinco filhos, talvez pela ausência de sequências dramáticas que permitissem ao espectador mergulhar no aspecto emocional da situação e de fato se conectar com esses personagens. Ao final, o filme resulta tão frio como o cenário em que se passa.


O oposto acontece em Minotauro, um filme igualmente sóbrio formalmente, mas que consegue de forma muito eficiente nos aproximar dos personagens. O longa é mais uma adaptação ou releitura, desta vez de A mulher infiel, de Claude Chabrol, mas situada na Rússia corrupta de Putin.

Ainda que os personagens principais – a esposa Galina (Iris Lebedeva) e o marido Gleb (Dmitriy Mazurov) – comecem como figuras crípticas, eles vão se revelando gradualmente de forma natural ao longo do filme. E para isso, certamente, o diretor colhe os frutos de atuações brilhantes não só do casal principal, mas de todo o elenco.

Outro talento de Zvyagintsev é a utilização da cinematografia como ferramenta narrativa de construção de suspense e ritmo. Uma cena marcante é a panorâmica feita no estúdio que frequenta a esposa, conseguindo criar uma tensão pela simples utilização desse movimento de câmera para apresentar um espaço até então desconhecido.

Também salta aos olhos a precisão do roteiro, com subtramas muito bem costuradas que compõem um recorte dos meandros da vida contemporânea na Rússia no contexto da “operação especial” na Ucrânia.

Minotauro é um retrato potente de como as relações íntimas são afetadas pela corrupção e violência da sociedade que cerca os indivíduos, e joga luz sobre a lógica por trás da autocracia oligárquica russa.

Depois de uma pausa de nove anos – em parte devida a uma internação seríssima pela qual passou o diretor por força da Covid em 2021 –, Zvyagintsev traz a Cannes um filme irrepreensível, que faz companhia aos excelentes The Banishment (2007), Leviatã (2014) e Loveless (2017) e mostra que o russo está no auge da sua forma.


EL SER QUERIDO, de Rodrigo Sorogoyen

É tentador para quem lê a sinopse de El ser querido pensar em Valor sentimental. Aconteceu com o próprio diretor, Rodrigo Sorogoyen, quando preparava seu longa e se surpreendeu com a seleção do norueguês em Cannes. Um cineasta (Javier Bardem) tenta se reaproximar da filha atriz (Victoria Luengo) que ignora há anos por meio de um convite para que atue em seu novo filme.

A premissa parece coincidir com o filme norueguês, mas em uma leitura mais atenta, tanto da sinopse quanto do filme, as semelhanças se dissipam o suficiente para que o longa espanhol ganhe status de obra altamente original.

Talvez haja uma diferença de temperamento, e o protagonista de Bardem se difere do personagem de Stellan Skärsgård inclusive no formato do conflito: lá, um pai numa relação difícil com a filha; aqui, um pai que abandonou e nunca mais contactou a sua, tentando agora se reaproximar pelo cinema, que originariamente talvez os tenha separado.

Um homem intempestivo, com talento para reescrever histórias do passado que não lhe convém reconhecer. Uma filha que seguiu a mãe na carreira de atriz e que talvez tenha herdado do pai o carisma e a vocação para contar histórias, como se vê em linda cena no lobby do hotel.

Duas almas inquietas, rancor e culpa acumulados, um abismo a ser transposto por meio da feitura de um filme complexo no meio do deserto, o retorno do diretor ao seu país natal. Metáfora melhor não há: a reconciliação é sempre uma viagem pelo deserto. Bardem tem uma força que há muito não se via na tela, um ator na plenitude da sua arte, acompanhado com maestria por Victoria Luengo, que não deixa nada a dever ao contracenar com o ator.

El ser querido é um filme que tem a força dos silêncios, como o primo norueguês, mas – mais do que isso – a força das palavras ditas ou mesmo gritadas. É uma filme que explora como poucos a condição de artista e o lugar que o cinema pode ocupar na vida dos indivíduos que a ele escolheram se dedicar e que terão suas vidas de certa forma definidas pelos filmes que fazem.

Penso na visceralidade do filme, na presença impressionante de Bardem, na delicadeza do retrato de uma família fragmentada pelo cinema e também unida por ele. Saio impactada: mais um belo filme, penso. Sento numa poltrona na área de imprensa do festival e vejo aberta na mesa à minha frente a última página da revista Screen, em que se publica o quadro de notas dos 12 críticos convidados pela revista.

El ser querido tem uma nota final média de duas estrelas (de cinco possíveis) para o filme. Passo o olho pelos demais concorrentes à Palma exibidos até agora, e só dois filmes conseguiram passar da nota três: All of a Sudden, com 3.1, e Fatherland com 3.3. Sete dos demais filmes com 1 ponto e alguma coisa. 

Será mesmo possível que os filmes estão nesse lugar entre "pobre" e "mediano", como identifica a revista com as notas de uma estrela e duas, respectivamente?

Me ocorre aquela máxima: uma crítica é sempre uma autobiografia. Acho que não é o cinema que vai mal, quem vai mal somos nós, críticos ou não.


DIARY OF A CHAMBERMAID, de Radu Jude
FATHERLAND, de Pawel Pawlikowski
SEMPRE SEREI SEU ANIMAL MATERNO, de Valentina Maurel

Finalmente: filmes!

Já em Cannes, um primeiro dia de todo tipo de sessão: para imprensa, première com equipe, reprise na repescagem. Em cada uma delas, uma energia diferente.

Diary of a Chambermaid, novo longa de Radu Jude, exibido na Quinzena de Realizadores, teve a energia característica do diretor na apresentação com toda a equipe. Esse é um aspecto interessante de Cannes, quando os diretores vão exibir seu filme pela primeira vez, e o discurso ainda não está tão ensaiado, o que acontece normalmente com as exibições consecutivas do filme por outras ocasiões e festivais. Há sempre um frescor, um nervosismo de toda a equipe que sobe ao palco, um certo frisson que contamina a sessão.

O filme é uma adaptação do livro homônimo de Octave Mirbeau, de 1900, sobre o qual se pode declarar sem pudor que é um dos livros mais adaptados do cinema, pelo menos no cinema de autor mundial. O primeiro foi Jean Renoir, em 1946, com Paulette Goddard no papel principal, seguido por Luis Buñuel em 1964 com Jeanne Moreau e, então, por Benoît Jacquot em 2015 com a queridinha do cinema francês Léa Seydoux.

Radu Jude traz a sua energia e o seu frescor habitual à releitura, protagonizada pela romena Ana Dumitrascu, que já havia aparecido em Dracula, com participação da excelente Ilinca Manolache, que marcou com sua atuação em Não espere muito do fim do mundo. Dumitrascu faz a versão romena da doméstica que dá nome ao livro, trabalhando para uma família francesa de classe alta em Bordeaux, enquanto lida com a distância de sua própria filha que vive com a avó no país de origem.

Dividindo-se entre polir os móveis e objetos dos empregadores, cuidar do seu filho e fazer ligações de vídeo com a sua família, ela ainda participa do ensaio de uma peça de teatro que adapta o romance. Pode parecer trágico, mas o filme tem o humor típico de Jude, que empurra situações absurdas ao ridículo, por vezes doloroso, mas sempre inteligente (e engraçado).

Um amigo saiu um pouco insatisfeito, comparando o longa a Fatherland, de Pawel Pawlikowski, uma das unanimidades do festival, que seria um filme muito mais bem acabado, mas não se trata disso. É como comparar bananas e maçãs, uma péssima ideia para um crítico. Cada cineasta faz um tipo de cinema, e nosso papel é lidar com o que está ali na tela, e não pedir que um faça o trabalho de outro.

Pawlikowski faz um filme a cada cinco – neste caso, oito – anos. Radu, na última década, fez dois, três, quatro filmes por ano. O seu talento não é a perfeição formal, mas sim a sua voz e a sua visão tão original e inevitável sobre o mundo em que vivemos.

E temos nisso o gancho para o filme seguinte a que assisti, uma sessão repescagem do novo filme de Ryusuke Hamaguchi, que havia conquistado corações – e até um Oscar – com sua obra-prima Drive my Car, e agora disputa a Palma de Ouro com o diretor polonês.

All of a Sudden é um filme franco-japonês, no melhor sentido da palavra. Duas atrizes, uma francesa, outra japonesa, ambas fluentes nos dois idiomas, passeiam por uma troca cultural, artística e humana em Paris e Kyoto. Livremente baseado numa coletânea de cartas entre uma filósofa e uma antropóloga, o filme reforça a sensação de que as adaptações literárias vieram para ficar.

Virginie Efira é a diretora de uma instituição francesa para idosos que assume a voz antropológica do livro. Tao Okamoto, uma diretora de teatro japonesa, com um passado em filosofia, que está em Paris com uma obra teatral sobre o tratamento da loucura pela sociedade moderna.

Com três horas e 17 minutos de duração, não será uma escolha óbvia para os espectadores, mas a viagem vale cada segundo. Um crítico americano, admirador da obra de Hamaguchi, escreveu que o filme parecia uma palestra bem longa e que sentiu cada um dos seus numerosos minutos de duração.

E, de certa forma, ele tem razão: o filme tem momentos palestrinha. A minha discordância é que são palestras que, sinceramente, a humanidade precisa ouvir.

All of a Sudden é uma reflexão profunda e existencial sobre a sociedade em que vivemos, orquestrada pelo capitalismo tardio.

Para completar o trio dessa primeira análise, o costa-riquenho Sempre serei seu animal materno (foto), de Valentina Maurel, que em sua introdução antes da sessão mencionou uma espécie de “nova onda” do cinema da Costa Rica da qual faz parte com outras mulheres diretoras de 30-40 anos que têm feito um esforço coletivo de criação no país.

Sempre serei continua a exploração de narrativas coming of age iniciada em seu primeiro longa, Tenho sonhos elétricos, laureado com múltiplos prêmios no Festival de Locarno em 2022. Estamos novamente com a protagonista Eva, interpretada pela mesma atriz Daniela Marín Navarro, que volta à Costa Rica depois de estudar na Bélgica e se vê imersa numa complexidade de relações em torno de sua mãe Isabel (Marina de Tavira, a matriarca de Roma) e da irmã mais nova Amalia, muito bem interpretada por Mariangel Montero.

A obra é uma exploração da complexidade das relações humanas: femininas no seio doméstico (mãe, irmã, babá que as criou) e também masculinas (pai, amigos, namorado). Muito bem fotografado, com interpretações excelentes, é um filme inquieto, agitado como Amalia, triste como Isabel, angustiado como Eva.

Parte da seleção Um Certo Olhar, o longa foi como uma onda de inquietude, energia e beleza que passou pela Croisette.


APLAUSOS, EXPECTATIVAS E ESPECULAÇÕES

Ainda no aquecimento para Cannes, vejo que começou a temporada da cronometragem! Relações paralelas, do iraniano Asghar Farhadi, com Isabelle Huppert, Catherine Deneuve e Vincent Cassel, foi aplaudido por 5,5 minutos. A terra do pai, terceira entrada do polonês Paweł Pawlikowski na competição, chegou a seis. E o troféu vai para Guillermo del Toro: 22 minutos cronometrados pela Revista Deadline para a exibição comemorativa de O labirinto do fauno. Vamos combinar que dava pra ter visto mais um filme nesse intervalo?

Parece piada, mas o que começou como um termômetro orgânico da recepção de um filme na sessão na presença da equipe virou competição maluca e pode se estender na sala até o público ser convidado a se retirar para não atrasar a sessão seguinte. Felizmente, esse foi o único combinado com os colegas para a cobertura pelo site: não usar a minutagem dos aplausos nos textos – regra que aceitei de todo o meu coração, até porque tem sempre outro filme prestes a começar em outra sala, e minha filha sempre diz que não sei usar direito o cronômetro do iPhone quando marco o tempo das suas estripulias.

Bom, mas ao que interessa, com aquela ironia que adoramos: em Cannes só se fala em Sexo adolescente e morte no Campo Miasma, o “drama romântico slasher satírico” que ficou longe do recorde mexicano, sendo aplaudido por singelos nove minutos. O longa de Jane Schoenbrun tem Gillian Anderson (de Arquivo X), e Hannah Einbinder (de Hacks). Eu me encontro na mesma situação do(a) leitor(a): não vi o filme. O que posso dizer, como frequentadora de Cannes, é que o festival adora dar as primeiras lacunas de exibição para artistas minoritárias malucas – com todo o respeito.

Historicamente, os filmes exibidos nos primeiros dias do festival são menos premiados, e tenho cá minhas teorias a respeito: todos chegam com sangue nos olhos e, com o passar dos dias e o acúmulo de filmes, a percepção vai ficando mais aguçada e mais aberta ao que o filme se propõe a entregar, e não ao que se esperava do diretor. Ficam aqui os meus cinco centavos de fabulação sobre o fenômeno absolutamente humano e imprevisível das premiações. Dito isso, tem muita gente já apostando que o filme leva alguma coisa, o que é um fenômeno bem típico de Cannes: pessoas apostando que filmes levarão prêmios.

O filme é distribuído pela Mubi, o que significa que logo teremos chance de conferir se vale o hype. Segundo Jane Schoenbrun, uma pessoa trans não binária, o público pode se divertir à vontade, mas sem esquecer que o filme é sobre repressão e violência sexual.

No mais, o próximo texto virá com menos especulação e mais opinião sobre filmes efetivamente assistidos nas deliciosas salas escuras da Riviera francesa. Até já!


A CORRIDA DE CANNES E O ESTADO DO CINEMA MUNDIAL

Depois da cerimônia de largada na noite de ontem, começa hoje a maratona de Cannes, com mais de 80 filmes sendo exibidos pela primeira vez nos próximos dez dias na Riviera francesa.

O Festival de Cannes é o meu evento favorito do ano há mais de duas décadas. Foi no coração da Mostra de São Paulo que a minha cinefilia desabrochou, e por isso a ela cabe o título de festival de cinema favorito. Mas Cannes não é apenas um festival: é um mundo paralelo no qual tudo é colocado em pausa exceto o cinema, que passa a existir como única realidade possível.

Frequentar o festival francês como crítica, ver cinco ou seis filmes por dia envolta no silêncio sepulcral de religiosos do cinema como eu, e ser condicionada a refletir sobre essas obras na forma escrita, sem qualquer contaminação prévia de avaliações e resenhas, é o mais próximo que estive todos esses anos de viver o cinema.

Esta edição é diferente das anteriores. Depois de vinte anos fazendo a cobertura para a Folha de São Paulo, aqui estou como crítica convidada do Críticos.com.br, num momento em que me questiono sobre o papel da crítica profissional num mundo de resenhas de Letterboxd e julgamentos fulminantes em posts lacradores – mas isso é assunto para outro dia.

Além das questões existenciais de uma crítica diletante, me encontro hoje no processo de montagem do meu primeiro filme como diretora, o que me fará perder os primeiros dias do festival.

Enquanto me preparo para começar a corrida, vão aqui algumas reflexões iniciais para quem nunca teve a sorte de estar lá.

Cannes faz anualmente um recorte da produção cinematográfica mundial e funciona como um termômetro da indústria. É um festival coberto por 4.000 jornalistas de 90 países, e também um mercado de negociação global por onde circulam 40.000 profissionais do mundo todo.

A relevância de Cannes é inegável, tanto para o cinema de autor quanto para a indústria, como se viu nos principais filmes concorrentes ao último Oscar, com 19 indicações a filmes exibidos no festival.

Mas neste ano não haverá nenhum filme de estúdio de Hollywood. “Quando os estúdios estão menos presentes em Cannes, eles estão menos presentes, ponto”, declarou o diretor-geral de Cannes, Thierry Frémaux. Para além do bairrismo do francês, ele talvez tenha razão: existe uma crise do cinema industrial norte-americano.

E a maioria parece concordar que o lançamento mal-sucedido num grande festival, com críticas negativas escritas a quente, acaba determinando a trajetória de um filme, inclusive em termos do investimento em marketing. Note-se que os dois filmes norte-americanos que tiveram maior sucesso no Oscar deste ano, Pecadores e Uma batalha após a outra, ignoraram o circuito de festivais e foram lançados diretamente nos cinemas.

Qualquer que seja a justificativa, o que nos interessa é que o cinema de autor voltou com tudo em Cannes 2026. A competição mais uma vez com predominância maciça de homens (dos 22 filmes, apenas cinco dirigidos por mulheres) e também de cinema europeu. Depois de um ano de destaque com Agente secreto e frevo na avenida do cinema, o Brasil passa batido nesta edição, com destaque para a Espanha e o Japão, ambos com três títulos cada competindo pela Palma de Ouro.

Os filmes mais quentes são assinados pelos nomes de sempre: Pedro Almodóvar (Amarga Navidad), James Gray (Paper Tiger), Koreeda Hirokazu (Sheep in the Box), Ryusuke Hamaguchi (All of a Sudden), Asghar Farhadi (Parallel Tales).

Mas a riqueza de Cannes é maior que a seleção competitiva, com animações, novos diretores, filmes de todo tamanho e formato, até em realidade virtual. E é esse passeio pelo estado do cinema do mundo que vamos propor aqui ao longo dos próximos dias.

Vamos nessa?

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Outros comentários
    5583
  • Glayer França Jordão
    16.05.2026 às 07:53

    Ótimas críticas sobre cinema. Acabei de ler sobre Cannes 2026 e acei excelente. Adoro cinema, em especial aos filmes europeus e asiáticos. Desprezo o atual cinema norte americano, industrial e sem graça. Estou muito feliz porter achado este site que promete muito e vem de agrado ao meu universo de cinéfilo. Espero acompanhar ansiosamente Cannes 2026, com seus filmes, sempre uma agradável surpresa. Parabéns por excelente contúdo desse site. Sucesso.