Críticas


ROSEBUSH PRUNING

De: Karim Aïnouz
Com: Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell
01.10.2026
Por Maria Caú
Situações dramáticas que miram o choque e acertam o constrangimento

Há algum tempo, estão em voga as narrativas ao estilo “eat the rich”, obras que se utilizam da tensão entre classes para retratar os ricos como um poço de depravação e virulência, observando-os a partir de um olhar voyeurístico, que mistura fascínio e repulsão. Essas tramas costumam girar em torno do gozo de observar as ruínas (moral, financeira e física) desses personagens, numa espécie de materialização do desejo de vingança contra as camadas opressoras. Rosebush Pruning, produção europeia falada majoritariamente em inglês e dirigida pelo brasileiro Karim Aïnouz, segue firmemente esse caminho ao abordar as doentias relações entre os cinco membros de uma família abastada, todos norte-americanos radicados na Espanha. Trata-se de uma refilmagem do longa-metragem de estreia de Marco Bellocchio, De punhos cerrados (1965), mas que escolhe traçar caminhos bem diversos da obra original.

Os personagens centrais, um patriarca abusivo e seus quatro filhos, se afirmam quase como personificações dos sete pecados capitais: Anna (Riley Keough) é a jovem luxuriosa, que se insinua para todos à sua volta; Jack (Jamie Bell) é o filho orgulhoso, que se acha melhor que os demais, mas cede às esdrúxulas normas da família (atraído sexualmente por sangue, o rapaz luta para romper com a simbiose da família, ou seja, para conseguir que os laços sanguíneos parem de dominá-lo); Ed (Callum Turner), o narrador, é o bon vivant invejoso, que tenta se assemelhar a Jack; já o física e emocionalmente frágil Robert (Lukas Gage) é tido a rompantes físicos para além do seu controle, de convulsões a ataques de ira.

Neste contexto, a relação entre Jack e Martha (Elle Fanning), uma jovem de classe média, filha de musicistas e que estuda para seguir o caminho dos pais, precipita toda sorte de pequenos conflitos, que vão aos poucos revelando a degradação moral da família milionária. Assim, encenam-se situações dramáticas que miram o choque e acertam o constrangimento, incluindo seguidas cenas de incesto e abuso, violência e sexo, envelopadas numa roupagem de cores saturadas e inserts videoclípticos rápidos e vibrantes. Em muitos momentos, a direção de arte e a fotografia remetem ao universo de Saltburn (2023).

Observa-se no cinema contemporâneo, e nos filmes mais recentes de Aïnouz, incluindo Motel destino (2024), uma escolha pela hiperestetização desenhada para esconder uma construção dramatúrgica pouco consistente. No caso de Rosebush Pruning, a opção pela sátira parece tentar (mal) justificar a falta completa de coerência interna do conjunto e a grave oscilação de tom (algumas cenas parecem apostar no melodrama, enquanto outras seguem um estilo satírico mais evidente). Também a falta de compromisso com o naturalismo parece servir para desculpar a escolha pelo cripface, que não é o maior dos problemas, se comparada com a constrangedora representação da cegueira ao longo do filme. De fato, na pele do cruel patriarca, Tracy Letts dá corpo à pantomima circense de um cego, o que parece ter por objetivo salientar a fragilidade do pai, que contrasta com sua rigidez, e fazer rir de sua condição e de sua dependência em relação aos filhos.

Por fim, cria-se uma imagem superficial dos ricos, com seus robes de seda como sinais evidentes de sua preguiça e devassidão, representação que não prima pela originalidade nem consegue se afirmar como crítica contundente. De fato, chega-se ao cúmulo de associar o gosto pela arte ou o apego à moda (pululam as referências a designers famosos) à futilidade, numa construção canhestra. Eat the rich, mas apenas se eles estiverem muito bem glaceados.



*Texto originalmente publicado no Papo de Cinema durante a cobertura do Festival de Berlim 2026.

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