
Há algum tempo, estão em voga as narrativas ao estilo “eat the rich”, obras que se utilizam da tensão entre classes para retratar os ricos como um poço de depravação e virulência, observando-os a partir de um olhar voyeurístico, que mistura fascínio e repulsão. Essas tramas costumam girar em torno do gozo de observar as ruínas (moral, financeira e física) desses personagens, numa espécie de materialização do desejo de vingança contra as camadas opressoras. Rosebush Pruning, produção europeia falada majoritariamente em inglês e dirigida pelo brasileiro Karim Aïnouz, segue firmemente esse caminho ao abordar as doentias relações entre os cinco membros de uma família abastada, todos norte-americanos radicados na Espanha. Trata-se de uma refilmagem do longa-metragem de estreia de Marco Bellocchio, De punhos cerrados (1965), mas que escolhe traçar caminhos bem diversos da obra original.
Os personagens centrais, um patriarca abusivo e seus quatro filhos, se afirmam quase como personificações dos sete pecados capitais: Anna (Riley Keough) é a jovem luxuriosa, que se insinua para todos à sua volta; Jack (Jamie Bell) é o filho orgulhoso, que se acha melhor que os demais, mas cede às esdrúxulas normas da família (atraído sexualmente por sangue, o rapaz luta para romper com a simbiose da família, ou seja, para conseguir que os laços sanguíneos parem de dominá-lo); Ed (Callum Turner), o narrador, é o bon vivant invejoso, que tenta se assemelhar a Jack; já o física e emocionalmente frágil Robert (Lukas Gage) é tido a rompantes físicos para além do seu controle, de convulsões a ataques de ira.
Neste contexto, a relação entre Jack e Martha (Elle Fanning), uma jovem de classe média, filha de musicistas e que estuda para seguir o caminho dos pais, precipita toda sorte de pequenos conflitos, que vão aos poucos revelando a degradação moral da família milionária. Assim, encenam-se situações dramáticas que miram o choque e acertam o constrangimento, incluindo seguidas cenas de incesto e abuso, violência e sexo, envelopadas numa roupagem de cores saturadas e inserts videoclípticos rápidos e vibrantes. Em muitos momentos, a direção de arte e a fotografia remetem ao universo de Saltburn (2023).
Observa-se no cinema contemporâneo, e nos filmes mais recentes de Aïnouz, incluindo Motel destino (2024), uma escolha pela hiperestetização desenhada para esconder uma construção dramatúrgica pouco consistente. No caso de Rosebush Pruning, a opção pela sátira parece tentar (mal) justificar a falta completa de coerência interna do conjunto e a grave oscilação de tom (algumas cenas parecem apostar no melodrama, enquanto outras seguem um estilo satírico mais evidente). Também a falta de compromisso com o naturalismo parece servir para desculpar a escolha pelo cripface, que não é o maior dos problemas, se comparada com a constrangedora representação da cegueira ao longo do filme. De fato, na pele do cruel patriarca, Tracy Letts dá corpo à pantomima circense de um cego, o que parece ter por objetivo salientar a fragilidade do pai, que contrasta com sua rigidez, e fazer rir de sua condição e de sua dependência em relação aos filhos.
Por fim, cria-se uma imagem superficial dos ricos, com seus robes de seda como sinais evidentes de sua preguiça e devassidão, representação que não prima pela originalidade nem consegue se afirmar como crítica contundente. De fato, chega-se ao cúmulo de associar o gosto pela arte ou o apego à moda (pululam as referências a designers famosos) à futilidade, numa construção canhestra. Eat the rich, mas apenas se eles estiverem muito bem glaceados.
*Texto originalmente publicado no Papo de Cinema durante a cobertura do Festival de Berlim 2026.