Críticas


SYLVIO BACK: PRIMEIRO LANCE

27.12.2008
Por Carlos Alberto Mattos
SYLVIO BACK : PRIMEIRO LANCE

Este artigo, escrito originalmente em 1989, foi recém-publicado no livro Lance Maior 40 Anos, que contém o roteiro do filme de Sylvio Back e uma seleta de artigos.



Lance Maior é não apenas o primeiro longa-metragem de Sylvio Back como também o primeiro longa de ficção paranaense a projetar-se nacionalmente. Nasceu do desejo do cineasta de inserir o estado onde cresceu no mapa de uma produção nacional, então dominada pelo Cinema Novo. Assim é que o filme dialoga com a crítica cinemanovista ao sistema de classes e com a visão da gente comum por um viés de corte sociológico.



Mas Lance Maior nasceu também da inquietação de um autor que não se via condenado ao corredor estreito de um cinema dito "regional". Basta ver como o filme decola da crônica provinciana para um vôo largo sobre fantasias e dores universais de uma juventude em transição.



Curitiba, em 1968, era uma pequena cidade grande. Embora ainda não houvesse se firmado como modelo de urbanismo para o Brasil, já apresentava características de complexo urbano emergente, impulsionada pela fortuna agrícola do Estado do Paraná. O cineasta e seus co-roteiristas vão captar exatamente essa fermentação para situar e desenvolver seus personagens.



Mário (Reginaldo Faria) é o centro do triângulo amoroso e da pirâmide social. Bancário e estudante de Direito, ele não possui o carro que na época simbolizava a afluência financeira e o poder de sedução, mas pode contar com uma mesada do pai, um lastro mínimo de segurança. Para escapar a uma carreira medíocre, procura munir-se dos instrumentos necessários para ascender à alta classe média (diploma, anel, emprego garantido a qualquer custo moral, golpe do baú). Cristina é seu alvo principal.



Universitária rica e mimada, avessa à política e à ”mistura” de classes, Cristina (Regina Duarte) leva a vida como se brincasse. Negligenciada por outro rapaz rico, ela namora Mário apenas como mais um brinquedo, descartável na hora adequada. Pertence a uma elite que está na vanguarda teórica da revolução sexual, mas no fundo sente nojo de sexo.



Neusa (Irene Stefânia), balconista e moradora do subúrbio, insatisfeita com a perspectiva de um casamento que promete mantê-la em condição humilde, vê em Mário uma opção de mobilidade social. Ela confia em sua própria sensualidade, mas só trocará a moeda-corpo por uma sólida proposta de casamento.



O sexo, longe de constituir uma experiência libertadora, aliava-se ao preconceito para formar uma armadilha diabólica capaz de encarcerar a todos em seus respectivos estamentos sociais. A última imagem de Mário, prostrado na pista do boliche, é uma eloqüente visualização do fracasso, um triste fim-de-jogo onde não restaram senão derrotados. Final feliz, só mesmo nas fotonovelas. Back não é cruel a ponto de castigar qualquer personagem com as cores da vilania. É apenas cru o suficiente para expor o calculismo e a porção de cinismo existentes em cada um.



As peças se movimentam segundo um esquema relativamente aparente, mas que Sylvio Back manipula com tal habilidade que não compromete a espontaneidade do roteiro. O esquema começa na apresentação dos três personagens, cada qual num estilo diferente que será, até certo ponto, conservado ao longo do filme: para Cristina, tomadas ágeis, musicais, transmitindo um clima de dissipação e velocidade; para Neusa, planos suaves e romantizados, acrescidos de uma imitação de fotonovela; para Mário, imagens fixas e duras, sugestão de cálculo e castração de sentimentos.



Aos espaços amplos dos ricos (carros esportivos, rampas da universidade, campo de golfe) contrapõe-se o habitat exíguo dos pobres (ônibus lotados, o vestiário apertado da loja, pequenos quartos de hotéis baratos).



Os objetos-fetiche da sociedade de consumo (carros, roupas, perucas, cosméticos) são presenças marcantes numa estética do cotidiano que não mais se repetiria em nenhum filme posterior de Back – mas que já prenunciava o olho do futuro documentarista. Basta ver as cenas de rua, o subúrbio, a cidade de Antonina.



Linear, mas contínua, a narrativa de Lance Maior é calcada no mais puro realismo praticado pela Nouvelle Vague francesa e pelo jovem cinema tcheco dos anos sessenta (Milos Forman à frente); ambientes e linguajar do dia-a-dia, fórmulas simples e inteligentes de reproduzir a vida de gente comum sem a contribuição nefasta dos estereótipos. Curitiba está toda lá – ruas, praças, mercado, três beijinhos no rosto das gurias. Mas a amarga interação do trio central passa uma verdade para além de qualquer fronteira.



Por outro lado, é natural que hoje os mecanismos de segmentação social tenham se tornado mais frios e sutis. Ainda assim, o filme continua a veicular uma crítica eficaz não à entidade vaga e mistificadora do Sistema, mas à própria teia de ambições individuais que mantém de pé os castelos da ilusão.



Lance Maior foi o primeiro filme moderno a comprovar que havia vida cinematográfica abaixo do eixo Rio-São Paulo – e bem distante do Nordeste eleito pelo Cinema Novo como palco privilegiado de suas parábolas políticas. (1989/91/2008)





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