Autor do filme fetiche In The Mood For Love (Amor à Flor da Pele/2002), e festejado neste momento em que o seu cinema começa a ser visto e admirado pelas grandes platéias ocidentais, Wong Kar-Wai é o grande poeta da perda, no cinema – das perdas de amor, da perda de identidade nas megalópoles impessoais e no mundo globalizado. Há quem o veja, com justa razão, como a mais fascinante novidade que vem revigorar e sacudir a mesmice não só do exausto cinema ocidental. Ele aparece como um dos mais vigorosos entre os melhores diretores do Oriente, os da China, da segunda onda de cineastas de Hong Kong, do Japão e da Coréia.
O cinema de Kar-Wai é o de alguém que capta, “reinventando a sedução asiática”, como observa o crítico Leon Cakoff, como nenhum outro, aqueles momentos perdidos que escapam por entre os dedos, pontuados por detalhes decisivos que, depois, vão retalhar a memória para sempre. É o que ele faz em In The Mood For Love (premio de melhor ator em Cannes, em 2000) e em 2046, este, o seu filme mais recente, mostrado em Cannes ano passado, e, aqui, desconhecido e até hoje difícil de ser encontrado em locadoras.
Kar-Wai mostra os instantes fugazes, às vezes apenas flashes, em que o futuro poderia ter se decidido de uma forma menos melancólica, e quando tudo poderia se definir diferente.
Seus filmes remetem ao cinema de Resnais, de Godard e de Kieslowski. Vasculham a memória, se enredam nos labirintos dela e os eventos se repetem, indefinidamente, tanto em In The Mood como em 2046, onde o presente, o passado e o futuro são um tempo circular e contínuo – não linear - e a percepção temporal, mais que meramente pós-moderna (como estética e como estilo de vida) é, sobretudo, filosoficamente oriental: hinduísta, zen, budista.
Em ambos ele trabalha com narrativas que se desfazem em pedaços, nas quais os personagens se desencontram, as histórias são inacabadas, tristes histórias de amores incompletos, e os fragmentos de lembranças recorrentes fazem o sentido se dispersar. Porque afinal, no fim não há sentido mesmo. Às vezes, a obra de Wong lembra a trilogia de Antonioni - O Eclipse, A Aventura, A Noite – revivida em uma linguagem na qual a forma e a pesquisa estética são cada vez mais radicais. Em 2046, mais uma vez, ele embala com elas fortes emoções – sempre contidas.
Sua inspiração declarada, para In The Mood, vem do décor de Jacques Demy em Parapluies de Cherbourg (o cenário/personagem, a atmosfera de nostalgia, os acontecimentos banais ou fora de controle, que se precipitam). Mas ela vem também, como ele diz em entrevista, do livro de Manuel Puig, Buenos Aires Affair - uma história não - linear.
Em 2046, o personagem de Chow - o ótimo ator Tony Leung -, que vem acompanhado por Kar-Wai desde Chungking Express, desta vez é o protagonista devastado pelas lembranças do amor truncado vivido com a bela Su Lizhen ou Mrs. Chan, a atriz Maggie Cheung de Amor à Flor da Pele. Agora, Chow não é mais jornalista. É um escritor trabalhando em uma fábula futurista na qual um misterioso trem, que parte de 2046, viaja fora do tempo, sem se saber para onde vai. Chow Mo-Wan agora mora e escreve em um quarto de hotel cujo número é ... 2046.
Os dois filmes de entrelaçam e se confundem. Há, inclusive, quem os considere fazendo parte de um todo; e devem ser vistos juntos, como em um jogo. As mulheres que em 2046 atravessam a vida de Chow são interpretadas por um grupo das mais espetaculares atrizes orientais. A célebre Gong Li, Faye Wong, Zhang Ziyi (a queridinha na moda), e, mais uma vez, Maggie Cheung, cuja presença monumental em Amor à Flor da Pele é inesquecível - uma imagem que vai crescendo e ocupando todo o quadro no decorrer do filme, super dimensionada propositadamente por Kar-Wai, porque é uma obsessão do homem, e se adorna com vestidos fetiche, estampados, através dos quais transmite sinais e mensagens sobre seu estado de espírito. A languidez, a impassibilidade, o desespero seco, e a imagem de Su/Cheung comendo, sozinha, no quarto da pensão em que vive, são extraordinários.
Saturado de signos da arte e da cultura globalizada, a trilha musical de 2 046 vem, novamente, como ocorre em Chungking Express e em In The Mood (não fosse Wong auteur legítimo de uma obra), se apropriar de magníficas canções dos anos 50/60, transformadas, também elas em fetiches. Perfídia interpretada por Xavier Cugat. Siboney, de Lecuona, com Connie Francis; Sway cantada por nada menos que por Dean Martin, e Christmas Song interpretada por Nat King Cole e seu trio! Aconchegantes, elas se contrapõem à indiferença do mundo contemporâneo.
Dois craques assinam os temas musicais do filme. O compositor japonês – este, um fetiche do próprio Wong - , Shigeru Umebayashi ( de In The Mood For Love, Old Boy e Clã Das Adagas Voadoras) e o alemão Peer Raben, um dos amigos diletos de Fassbinder e autor da música de quase todos os filmes dele.
Às rumbas e cha-cha-chas se juntam outros achados musicais geniais como a ária Casta Diva da Norma de Bellini gravada cinco anos atrás pela jovem grega Angela Gheorghiu. (Kar-Wai não usou a antológica gravação de Callas dessa ária).
“As inspirações musicais de 2 046”, escreve a crítica Joanna C. Lee, “são múltiplas e semelhantes a uma paleta com nuances infinitas. (...) o som e a imagem se fundem harmoniosamente em um quadro sensual e ressuscitam nossas lembranças, mesmo aquelas que achávamos que tínhamos esquecido.”
Um outro crítico do filme e da obra de Wong, o francês Jacques Rancière, professor da Universidade Paris 8 e autor de vários trabalhos sobre estética contemporânea, analisa assim 2046 e chama a atenção para suas sucessivas mandalas: “Na abertura do filme, através da enigmática forma circular, somos apresentados a uma série de espirais de narrativas de identidade e memória, com ruptura entre os planos, retomadas de narrativa e permutações de personagens.O esplendor de 2046 é ininterrupto, repleto de contrastes luminosos e é uma surpresa constante de enquadramentos e cortes insólitos.”
Quem é Wong Kar-Wai? Ainda vamos ouvir bastante falarem dele. Trata-se de um chinês de Shanghai que emigrou com a família para Hong Kong quando tinha 5 anos deixando dois irmãos pequenos para trás. Só aos 13 anos ele começou a falar o dialeto cantonês da sua nova cidade. Estudou design até l980 e largou a faculdade para ser roteirista de TV. Foi assistente do diretor Patrick Tam, da primeira onda do cinema de Hong-Kong, e, em 2001, fez dois filmes comerciais – dizem que obras primas da publicidade – para a BMW e para Lacoste.
Kar-Wai é casado com uma americana, Esther, e pai de um garoto, Chen, de 9 anos. Foi descoberto por Tarantino no Festival de Cinema de São Paulo, em 1992, quando ainda não era famoso, e deixou-o deslumbrado com As Tears Goes By (89) e Days of Being Wild (90), seus primeiros filmes. Hoje, talvez já seja mais festejado até do que o japonês Takeshi Kitano, outro ícone do cinema inovador oriental. Um grande admirador de Wong é Bertolucci, que já se disse influenciado por ele em Assédio, onde aliás a fonte é evidente. Nas texturas da imagem, em certos tons dourados e escarlates, nas pausas e reflexão, e no uso da música inquietante de Scriabine pontuando a passagem imperiosa do tempo.
Mas o efêmero, no cinema de Kar-Wai, é bem mais poderoso. Está na fumaça dos cigarros que são sempre acesos pelos personagens de In The Mood For Love e de 2046, e nos relógios que, com freqüência, aparecem nos quadros de todos os seus filmes como se remetessem à contagem regressiva do instante em que Hong Kong deixaria de ser colônia inglesa. Em 2046, como em Amor à Flor da Pele, o fim é triste, vazio. Nem a suavidade nem o calor da voz de Nat King Cole festejando o Natal em um cabaré ruidoso e esfumaçado de Singapura consola Chow.
Como diz o próprio Wong, quando fala da memória e das lembranças: ”Todos nós temos necessidade de um lugar onde guardar, estocar e esconder lembranças, pensamentos, impulsos, esperanças e sonhos. São aspectos da nossa vida que não podemos resolver e sobre os quais não podemos agir. (...) Para alguns, este lugar é um espaço real; para outros, um espaço mental e para um número reduzido de pessoas não é nem um nem outro.”
Todos, no entanto, reconhecem, nos seus filmes, o eco de um grito de dor lançado através do tempo. Por isso eles calam tão fundo.
LÉA MARIA AARÃO REIS é jornalista.